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Um fardo de trigo, um latão de margarina, chocolate em pó a gosto e pronto. Você pode comprar 16 centrais de ar de 36 mil BTUS, montar uma banda marcial escolar e ainda investir em outras ações que possam mudar o cotidiano de cerca de 2.000 alunos de uma escola. Parece um conto de fadas, mas isso que aconteceu a professora de português aposentada Elba Rosa Dias, que hoje dirige a Escola Estadual Professor Nilton Balieiro Machado, no Marabaixo IV. Os objetivos estão sendo alcançados com criatividade, força de vontade e com uma espécie de biscoito (bem antigo por sinal) chamado “Monteiro Lopes”.

Essa trajetória começou há 15 meses, quando a professora saiu de um emprego de oito anos na maior escola municipal de Macapá, e aceitou uma nova etapa de desafios em uma Instituição cheia de problemas estruturais e sociais, localizada na zona oeste da capital. “No início foi muito difícil, mas eu tinha que tomar uma providência rápida para mudar essa realidade e conseguir dormir mais tranquila” contou.

Escola Nilton Balieiro

De imediatado era preciso dar mais conforto para os alunos em sala de aula. O calor de Macapá era duplicado dentro das salas e atrapalhava o aprendizado. Com essa inquietação, Elba teve a ideia de reativar um empreendimento que já realizava em seu antigo emprego. Assim começou uma pequena “fábrica” de biscoitos Monteiro Lopes. A fábrica funcionava na copa da escola. “Não comecei totalmente sem expectativas, pois ainda em meu antigo emprego já realizava essas vendas e percebia que tinha a aceitação dos alunos e corpo docente” prosseguiu.

Nas primeiras semanas ela se surpreendeu com o retorno das vendas: lucro de R$ 150,00 por dia vendendo biscoitinhos a R$ 0,50. “Tomei a primeira grande decisão. Comecei a colocar forros nas salas, um passo que deveria ser acompanhado por mais uma grande decisão, a compra das centrais para resolver o problema do calor”.

Salas Climatizadas pela professora.

Salas Climatizadas pela professora.

No segundo mês a diretora conseguiu comprar as 16 centrais de ar usando o próprio nome no cadastro da loja. E mesmo sendo bastante criticada pelo corpo docente, que afirmava que tal atitude deveria ser tomada pelo poder público, continuou em sua empreitada para tentar mudar a realidade da escola. A aceitação foi tão boa que logo a cozinha da escola ficou pequena para a produção, e uma pessoa foi contratada para se dedicar somente a isso. “Nó início tínhamos uma produção pequena para atender a escola. Logo tivemos que aumentar a produção porque os alunos realmente compravam. E logo os pais se tornaram consumidores, seguidos depois pelos moradores do entorno da escola. Assim percebemos que a produção deveria ser aumentada para atender toda essa demanda” lembrou.

A Multiplicação

O sucesso gerou a primeira oficina dedicada à comunidade estudantil, que reuniu um grupo de pais e moradores do bairro para ensinar a fazer o pequeno biscoito. Após essa oficina, uma mãe foi selecionada para continuar ajudando na produção. “A copa da escola ficou pequena, então buscamos uma mãe que estava precisando de um emprego para tomar conta dessa produção. Atualmente à produção chega a 1.500 biscoitinhos por semana e uma renda de R$ 750,00, valor que rapidamente quitou o pagamento das 16 centrais de ar” contabilizou a diretora.

Após a quitação da compra das centrais a diretora fez a transferência formal do material para o nome da escola. E tomou mais uma iniciativa, fez a compra de 130 instrumentos para equipar por completo a banda marcial da instituição, que atualmente faz apresentações em vários eventos e é a segunda maior do estado. Os ensaios acontecem todos os sábados e atende 100 alunos.

Banda Marcial da Escola Nilton  Balieiro.

Banda Marcial da Escola Nilton Balieiro.

Os estudantes também perceberam essa mudança na escola. Claro que as cobranças continuam, mas elas sempre vêm com um teor de expectativas, já que as mudanças estão realmente acontecendo para a comunidade da escola Nilton Balieiro. “Eu estudo há sete anos na escola, e realmente consegui observar essas mudanças dentro e fora do ambiente escolar. Sem contar que o Monteiro Lopes é muito gostoso e nós [alunos] juntamos as moedas para comprá-los” contou Mateus Oliveira, estudante da sétima série. “Agora a senhora já pode me dar um ano de monteiro Lopes de graça, pelo meu depoimento” brincou o aluno olhando para a diretora que não conteve os sorrisos.

Junto a esse projeto, outros foram sendo criados por professores que começaram a voltar as suas atenções para atividades extraclasses. “A força de vontade da diretora contagiou a escola e passamos a correr atrás de projetos para agregar valor a nossa comunidade estudantil, foi assim que surgiram os projetos de música, de caratê e mais recentemente a oficina de produção detergente e amaciante voltada para os pais de alunos carentes” acrescentou Mirian Dias, coordenadora pedagógica da escola.

Mateus Oliveira, estudante da sétima série.

Mateus Oliveira, estudante da sétima série.

Esse foi outro grande projeto para agregar valor à comunidade escolar. Os moradores do entorno da escola participaram de uma oficina de fabricação de amaciantes e detergentes. “Nó início nós só fabricávamos o detergente para diminuir as contas da escola e atualmente esse curso sempre tem novos nomes na lista de espera para a próxima turma” explicou dona Elba Rosa.

Ela explicou que essa fabricação é um ótimo empreendimento para as famílias carentes do bairro, pois com um investimento de R$ 25,00 e possível fazer cem litros do produto e aumentar a renda familiar.

Por enquanto o dinheiro arrecadado com as vendas do biscoito será apenas usado para o pagamento dos instrumentos adquiridos a cerca de quatro meses, mas os planos futuros já apontam para a compra de instrumentos musicais para forma a primeira banda musical da escola.

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