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A gente quase não olha para o céu quando está na rua. Aqui e ali só pra ver se vai chover, geralmente antes de sair de casa. Em geral não nos damos ao trabalho de enxergar o azul, o cinza, o amarelo, o laranja, as cores que nascem da luz branca que o sol projeta sobre os átomos. E a todas aquelas estrelas que ficam a piscar para nós quando o sol recolhe-se a seus aposentos.

Um dia fui ao terraço do prédio onde moro. E lá fiquei deitado no chão olhando as estrela. Foi quando tive uma epifania que me mostrou o terrível segredo da humanidade. Deitado no chão de cacos de azulejos, olhando os caquinhos de luz brilhante lá em cima, me senti como se estivesse no fundo de um poço.

Acho que é isso e por isso que acreditamos em deuses e santos. E no céu mais como fenômeno mítico do que físico. Sem os deuses e seus santos, rapidamente iriamos nos perceber no fundo do poço da compreensão verdadeira de que somos, apenas e demasiadamente, humanos.

Outra constatação: a necessidade de ter um herói, um guerreiro poderoso capaz de (sozinho) dar conta de um exército inteiro ou de destruir um império. Heróis de quadrinho ou de igreja e, obviamente, os heróis de carne e osso: Gandhi, Tiradentes, Jesus Cristo, Antônio Conselheiro, Angelim – o cabano. E muitos outros tantos.

Einstein assumiu a ideia de que a vida é um filme em quatro dimensões, sendo esta quarta o tempo. E que, quando estamos parados, envelhecemos mais depressa.

Constatei isso deitado no terraço. Tudo passa mais depressa quando estamos deitados no chão olhando para o céu. As nuvens, os cometas, os aviões, os pássaros noturnos. É o tempo tocando o ritmo dessa película chamada vida à qual não se pode dar retoque, pois é exibida em tempo real. Quando paramos para contemplar a vida, ela acaba nos escapando, porque a vida não é para ser olhada. Como o mar de Leminski, a vida se espalha para tudo que é lado. O negócio é acompanha-la para envelhecermos mais devagar, como ensinou o Einstein.

O físico alemão, de cabelo arrepiado e língua de fora (que virou símbolo dos Stones) detonou a ciência e nos deixou mais perto de uma realidade que parece cada vez ficção, onde as dobras do universo criam os buracos de minhocas, nos quais é possível percorrer milhares de quilômetros com uns poucos passos.

Talvez Einstein tenha descoberto um desses buracos de minhoca, quando ainda era um estudante tido como relapso e preguiçoso, e tenha ido ao futuro, onde aprendeu a teoria da relatividade, o domínio da velocidade da luz e o fascínio dos átomos. Só que ele não conseguiu mais encontrar o buraco por onde viajou e ficou por aqui, como um dos maiores gênios da humanidade.

Manoel do Vale

 

 

 

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