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Certo dia vi um homem (pedinte) que num descuido de seus passos tortos (ele estava bêbado) errou um dos lances da calçada em degraus e se establefou no chão, sem jeito e sem alarido. Não havia transeuntes que ele pudesse atrapalhar com seu corpo magro e suas pernas finas espalhadas de qualquer jeito na calçada limpa de camelôs ou de papéis de bala e até mesmo pontas de cigarro.Um milagre. Não de a calçada estar limpa, mas o fato dele não ter quebrado nada importante além da lei da gravidade (que fica mais grave à medida que ficamos mais bêbados), pois ele exibia enrolada na perna direita uma gaze ainda branquinha que denunciava um curativo recente.

O homem ficou ali na calçada, quieto. Pensei que ele tivesse desmaiado e me aproximei para ajudar, mas ele recolheu o braço que, na queda, ficou penduradoao meio-fio e o ajeitou debaixo da cabeça, como se fosse um travesseiro. E soltou um suspiro satisfeito, como uma criança que acaba de entrar em um sonho feliz.

Foi aí que reparei de verdade na verdade das pessoas: todos sonham. Os que caem na cama e os que caem na calçada, à gravidade do abandono.

Resolvi não interferi na cena do homem dormindo na calçada e segui meu caminho desejando-lhe bons sonhos.

Sonhar é aquela linha tênue que nos permite ficar lúcidos na realidade do mundo sensível, onde a calçada tem a dureza do concreto e, pode acreditar, machuca um bocado quando vacilamos à tentação da gravidade e caímos.

Somos todos equilibristas, sem sombrinha nem aquela vara flexível para dar apoio. Muitos nem sequer sabem dessa condição, mas somos. É por isso que a palavra equilíbrio é sempre tão presente na vida da gente: temos que conquistar o equilíbrio econômico, manter o equilíbrio emocional, equilibrar a pressão arterial, equilibrar a corpo ao pesa da idade como a dona Maria equilibra a saca de quarenta quilos de macaxeira na cabeça, da roça até a casa de farinha.

Mas, vira e mexe, o equilibrista que existe dentro de nós pede desculpas e cai, ao peso da vida ou ao peso da morte. Mas cai.

Manoel do Vale

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