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O lugar é desconhecido da maioria dos amapaenses católicos, mas muita gente já ouviu falar que na zona rural de Macapá existe um recanto tomado pelo silêncio, o verde e a dedicação à oração. O mosteiro Santa Verônica Giuliani seria facilmente confundido com uma chácara ou sítio se não fossem os muros, dormitórios gradeados e uma capela bem na entrada da propriedade. No complexo, bem construído, moram cinco irmãs da Ordem das Clarrisas Capuchinhas, um grupo formado por mulheres que optaram por uma vida sem carreira profissional ou filhos. Uma vida inteira dedicada à clausura, e a um isolamento quase que total do restante da sociedade.

O mosteiro fica no fim de um ramal onde só é possível chegar entrando pelo Km-9 da Rodovia Duca Serra, e cruzando os trilhos da via-férrea. O mosteiro é um lugar de paz. Ouve-se o canto dos pássaros, o sopro do vento e sente-se o tempo todo um cheiro de grama, de mato. O único homem trabalha do lado fora do prédio principal, um caseiro que mora na região e ajuda a cuidar dos jardins e da limpeza do terreno.

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A Ordem das Irmãs Clarrisas Capuchinhas nasceu há 1538 na cidade italiana de Nápoles por iniciativa de Maria Lorença Longo, uma nobre que era viúva e pertencia à Ordem Terceira Franciscana. Junto com mais 12 mulheres devotas de Santa Clara, ela dedicou a obras sociais e construiu um hospital, até criar o primeiro mosteiro.

No Brasil, a ordem surgiu na cidade de Flores da Cunha, no Rio Grande do Sul, há 30 anos. Em 2004, cinco irmãs vieram para Macapá onde fundaram o mosteiro. “A nossa missão é oração, intercessão e contemplação, além de assistência espiritual às pessoas que nos procuram”, descreve a madre superiora Maria Juliane do Bom Pastor, natural da cidade paranaense de Siqueira Campos.

Se sentir chamada por Deus é o primeiro passo para ingressar na ordem. A jovem que sente o chamado é acompanhada pelas irmãs por cartas ou e-mails com orientações e informações que se seguem por um período mínimo de seis meses. “Depois disso as mais interessadas passam por um acompanhamento aqui dentro do mosteiro durante três meses, onde elas vão se aprofundar e conhecer mais a nossa rotina. Então só a partir daí elas entram para a clausura”, explica a madre.

Maria Juliane do Bom Pastor é a madre superiora. O início da vida de clausura pode gerar conflitos familiares, mas depois de um tempo “Deus vai trabalhando” para consolar os pais por causa do distanciamento.

A decisão pela clausura não é fácil e por mais que se pertença a uma família religiosa, a opção geralmente causa conflitos familiares. “Eu mesma fiquei dois anos sem receber visitas do meu pai. Só no dia da minha da minha profissão de fé é que ele apareceu e ainda assim com uma certa resistência. Mas com o passar do tempo Deus vai trabalhando. Hoje falo sempre com minha família por telefone e os visito a cada três anos”, comenta a madre que ingressou aos 16 anos na vida religiosa e aos 19 anos no mosteiro.

Cotidiano

A rotina no mosteiro é simples. Além da oração, as irmãs Clarissas passam o dia em afazeres domésticos, manutenção do jardim, da horta e na preparação de sorvetes de frutas (muito bons por sinal. Provei um de morango perfeito). Os sorvetes, velas ornamentais, cds musicais e outros produtos são vendidos no próprio mosteiro para as pessoas que frequentam a capela. O dinheiro, claro, ajuda na manutenção que só é possível com ajuda de doações. A capela fica aberta todos os dias para a comunidade, inclusive aos domingos, às 16h30.

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A vida no mosteiro é quase que de isolamento total, se não fosse pelos visitantes que frequentam a capela ou aparecem querendo comprar produtos. Não há vida social. Se houver um convite para um evento, mesmo, que seja religioso, elas não podem aceitar. “Temos as causas justas e manifestas que nos permitem sair da clausura, mas geralmente não saímos”. As irmãs tem acesso à internet, telefone e a assinaturas de jornais. Não há televisão.

No mosteiro de Santa Verônica Giuliani moram cinco irmãs com idades entre 35 e 86 anos. Só uma é de Macapá. Nos próximos dias mais duas devem se juntar a grupo, uma de Campina Grande (PB) e outra de Santana (AP).

Maria Madalena, a única macapaense do grupo. "Se eu não entrasse para o mosteiro seria médica para ajudar as pessoas"

Maria Madalena, a única macapaense do grupo. “Se eu não entrasse para o mosteiro seria médica para ajudar as pessoas”

A única macapaense do grupo, até agora, conheceu o mosteiro no dia da benção da pedra fundamental. “Meu desejo sempre foi ser religiosa. Senti o chamado aos 17 anos. Eu sentia uma felicidade incrivelmente grande ao ajudar as outras pessoas. Eu tinha o desejo de ser médica para ajudar. A felicidade pra mim é servir a Deus e ao próximo. Se eu não tivesse entrado para o mosteiro eu seria uma leiga consagrada a Deus com minha família”, revela a irmã Clarrisa Maria Madalena, a única amapaense do grupo.

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