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Foi entre o começo de novembro e o fim de outubro, numa madrugada, portanto, que eu tive minha trigésima sétima morte. Não foi a mais bonita nem muito menos a mais trágica, nem a mais doce ou a mais extravagante. Foi simplesmente a mais sexy e com o sotaque mais delicioso que eu já ouvi.

Tinha o cabelo amarelo e fino que lhe dava a impressão de espiga de milho, uns olhos profundamente verdes riscados de lápis preto ao redor de suas pálpebras.

A minha trigésima sétima morte saiu para festejar seu aniversário de quarenta e cinco anos no mesmo bar no qual decidi comemorar a edição do meu segundo livro, primeiro de contos. Entre o inseto (eu) e o inseticida (ela), um amigo em comum, que nos apresentou.

Seu nome: Cristina. Só que escrito e falado em outro idioma, o alemão.

Tinha na expressão do olhar as milhares de festas pelas quais passou em suas viagens pelo mundo. A voz de militante de esquerda, menina sonhadora que não baixa a guarda na defesa de um mundo mais das pessoas, menos do dinheiro.

Enfim, mais uma paixão, a primeira à primeira vista, me enfiando a mão para arrancar-me do peito o coração. E eu morri ali mesmo, num bar de terceira, tomando uma cerveja de quinta. E ouvindo um violeiro medianamente talentoso que conheço de outras serestas, mas que se esforçava para fingir que não me conhecia. Por isso eu, e minha morte alemã, caçoamos dele.

Dei a ela meu livro com uma dedicatória torta (porque minha caligrafia é torta) e mal escrita (porque eu já estava por demais bêbado) e fui–me embora o mais rapidamente, para que ela não pudesse, com sua beleza germânica, tripudiar de minha humilde morte latino-americana.

Quando eu acordei, estava mais cansado que de costume.

Manoel do Vale

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