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À tarde. O clima anunciava tristeza para o fim do período. A cidade lua esperava a chuva com suas crateras abertas, como as veias abertas de Galeano na América Latina. Um rio diáfano corria por sobre nossas cabeças, soprado levemente do oceano.

Os urubus passeavam seus voos precisos criando entre o Amazonas e meu pensamento um delírio de Van Gogh. E eu seguia pensando numa mulher a quem deveria encontrar em uma cafeteria ali perto. Enquanto andava, olhava a paisagem procurando uma imagem que fosse a síntese, a velha e boa síntese, do inverno amazônico.

Na verdade, procurava uma lembrança. Sabia que a tinha, mas não fazia ideia de onde ela estava. Uma lembrança com os tons e a umidade fria daquela tarde, de urubus acrobatas e rios voadores. Por certo era a lembrança de uma mulher, esquecida depois da linha do tempo-foi, quando eu espichava as pernas no tronco da mangueira rosa que me acolhia com suas mãos de cepa no quintal de casa, onde lia os amores adolescentes dos livros de Lindanor Celina, e desenhava paixões ouvindo os delírios musicais de Vitor Ramil e as canções de Bob Dylan.

Procurava reconhecer na atmosfera daquela tarde uma lembrança com o mesmo cheiro de rio que sentia naquele momento em que o Amazonas seguia, com suas águas sorrateiras, sua luta diária para tomar de volta as margens que lhe pertenciam por direito. Seria como um presente para a mulher cujos olhos eu iria ver pela primeira vez dali a instantes.

Uma lembrança para dar presente a alguém parece algo insólito, quando esse alguém é completamente estranho a você. Talvez fosse um exagero poético sem nenhuma licença.

Cafés lembram lugares onde nunca estive e também me dão essa sensação boa de presença futura, de mochila suja de poeira, de viagem … Quando cheguei, ela já estava.

Vintage. A palavra que veio à minha mente ao ver aquele ser moreno sentado na calçada do café com um livro aberto nas mãos. Uma mulher elegantemente compondo, com o azul suave da parede com aquela tarde úmida e fria, uma imagem retrô. Bem do jeito que eu procurava.

Ela própria a lembrança que procurava. Em seu espectro amazônico cabia toda a modernidade da tarde e as saudade que me inspiravam. Trazia tatuada no braço uma velha máquina de escrever que carrego comigo em meus quinze anos de mudanças. O sorriso que ela me lançou confirmou o fato de que eu não a conhecia.

O clima prometia tristeza para o fim do período, mas ele só me trouxe uma conversa tranquila sobre sonhos, artes, estilos e criação.

De repente aquele Café poderia estar em qualquer lugar do mundo, porque tinha em minha frente uma mulher tão universal quanto eu.

Manoel do Vale

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