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Existem pessoas que colecionam os mais variados objetos com a intenção de também guardar momentos importantes em sua vida. No caso do policial Nelson Julião Santos do Carmo, 55 anos, a coleção é de chaveiros. Alguns ajudam a contar parte da história do Amapá. O passatempo que ele prefere de chamar de vício, começou aos 10 anos de idade quando ele ganhou um chaveiro do pai, e desde então passou a fazer a coleção que hoje tem mais de 2.000 exemplares e continua crescendo.

Chaveiro do auge da cachaça Tatuzinho

Chaveiro do auge da cachaça Tatuzinho

O pai do policial colecionava chaveiros, daí veio a fascinação. Quando era criança, sempre que sobrava dinheiro tratava de aumentar a coleção. Aos 15 anos de idade ele já possuía mais de 200 chaveiros. “É uma grande paixão. Eu guardo com muito carinho e cuidado. Acredito que cada chaveiro tem um pouco de história, seja do lugar que representa ou da forma que chegou a mim”, afirma o policial.

à direita o chaveiro do Guarasuco

chaveiros do extinto GuaraSuco

Natural de Belém, ele tem mais de 300 chaveiros de lojas, bancos e tapeçarias do município paraense. A coleção aumentou mesmo quando ele veio para o Amapá na década de 1970. “O primeiro chaveiro que tenho do estado é de uma loja chamada Mundo das Tintas onde trabalhei. Era uma nova fase na minha vida. Estava tudo diferente. Eu tinha acabado de me mudar para cá com a minha família, dele guardo boas recordações”, comenta Nelson do Carmo.

Extinta Codeasa, tempos do Território Federal do Amapá

Extinta Codeasa, tempos do Território Federal do Amapá

O hábito de colecionar ele atribui a seu signo, virgem, e ao pai. “Eu acredito que guardo tudo isso por causa do meu signo. O virginiano tem um apego pelas coisas, principalmente do passado. Eu gosto muito disso, mas acho também que é por influência da coleção do meu pai. Inclusive quando ele morreu minha não sabia o que fazer com a coleção dele. Então ela me deu. Todos os chaveiros que eram dele eu guardo com zelo redobrado”.

Saudoso Novotel, atual Macapá Hotel.

Saudoso Novotel, atual Macapá Hotel.

O policial diz que já tentou colocar tudo arrumado na parede de casa, mas sua esposa não deixou. A coleção tão preciosa para ele é guardada em sacos e lacrada. “Eu já tentei pendurar tudo na parede, mas minha mulher não gostou. Então arrumei em sacos e dividi os de metal e os de plásticos”.

Grande parte da coleção tem uma história. O chaveiro da cachaça Tatuzinho, por exemplo, foi um presente de uma amiga da sua esposa, que trouxe a lembrança do Rio de Janeiro na década de 1980.

Extinto Supermercado Brunswick

Extinto Supermercado Brunswick

Já o chaveiro do Novo Hotel Macapá, ele simplesmente pediu de um funcionário quando chegou ao estado. “Muitos eu pedia na cara dura mesmo. Acho que as pessoas ficavam intimidadas ou com vergonha de negar e acabavam me dando”, brinca ele.

O chaveiro da Codeasa, a antiga Companhia de Desenvolvimento e Abastecimento do Amapá, ele também pediu de um conhecido que trabalhava órgão. “Esse chaveiro conta um pouco da história dessa companhia e eu duvido que alguém tenha um desses ainda por aqui”, gaba-se.

1982: Deputado federal Paulo Guerra, hoje professor aposentado

1982: Deputado federal Paulo Guerra, hoje professor aposentado

Antonio Pontes, do antigo MDB, hoje PMDB

Antonio Pontes, do antigo MDB, hoje PMDB

Um dos chaveiros que mais tem história é o do Esporte Clube Macapá. “Eu vi um homem com um chaveiro desses, perguntei onde conseguiria um ele e disse que tinha na banca de revista. Eu rodei Macapá inteira atrás e não encontrei. Fiquei desesperado porque queria muito. Dias depois reencontrei o homem, o enchi a paciência até ele ceder e me vender o dele. Eu gosto do clube e queria o chaveiro”. “Esse da casa Araújo, foi dado pela loja junto com um calendário como presente de fim de ano, eu adorei”.

Há também chaveiros de políticos. “Na década de 1980, distribuíam muito isso. Ganhei do Paulo Guerra (deputado federal) e do deputado Antônio Pontes do MDB. Depois não podiam mais distribuir os chaveiros (proibição da lei eleitoral). Mas esses aqui são grandes relíquias”.

Um dos primeiros chaveiros da Casa Araújo. Anos 1980

Um dos primeiros chaveiros da Casa Araújo. Anos 1980

A maioria dos chaveiros é de lojas que nem existem mais. “Esse posto Santo Antônio e o Supermercado Brunswick nem existem, mas guardo tudo. Acredito que talvez nem os donos desses antigos estabelecimentos tenham isso. Mas pra mim isso é muito valioso”.

Por razões diversas, Nelson do Carmo já pensa em colocar tudo em um mostruário. “Me dói muito ver eles escondidos aqui (ficam guardados em um baú de plástico), quero expor e deixar em um lugar fixo. Assim será mais fácil para as pessoas verem”.

Nelson herdou o gosto por chaveiros do pai que quando morreu deixou para ele mais de 300 peças. Hoje são mais de 2 mil

Nelson herdou o gosto por chaveiros do pai que quando morreu deixou para ele mais de 300 peças. Hoje são mais de 2 mil

Os chaveiros mais recentes foram dados pelas netas, um de “joaninha” (besouro colorido), da gatinha “Marrie” e do “Pateta”. “Elas dizem que eu tenho que lembrar delas. Eu gosto muito, não importa como do que são, eu apenas quero os chaveiros”. O paraense conta que sua grande preocupação é o que vai acontecer com sua coleção quando ele morrer. “Eu já pensei sobre isso. Minha mulher não gosta. Meus filhos admiram, mas não cuidam. Temo que quando morrer isso fique em um canto. Minha esposa já disse que jogar fora ela não vai. Mas até lá eu quero ter mais. Quem sabe ela guarde para se lembrar de mim e do tempo que eu dedicava para cuidar deles”, reflete Nelson.

 

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