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Cantor, compositor, um dos pioneiros do movimento Costa Norte, poeta, problemático, pai, cinquentão, palhaço e marginal. É assim que se define o polêmico cantor e compositor Osmar Júnior. Amapaense da gema, o “Poetinha” nasceu no coração do Laguinho. Cresceu pelas ruas de Macapá e na beira do Igarapé das Mulheres. Com 30 anos de carreira, ele já morou em Belém, mas detesta sair do Amapá. Considera o povo amapaense único e digno de suas canções. Diz que passa mal só de pensar em ficar uns dias longe daqui, dessa gente calorosa e tão cheia de vida.

Nesses 30 anos de carreira, Osmar Júnior coleciona composições de sucesso como: Tajá, Coração Tropical, Canção do Equador, Sentinela Nortente, Igarapé das Mulheres e Pedra do Rio. Hoje ele mora no conjunto Cabralzinho (Zona Oeste de Macapá) com o filho e a esposa. Garante estar livre das drogas que geraram tantas polêmicas e reviravoltas na sua vida.

Em uma conversa franca, ele fala de tudo: poesia, amizade, sucesso, política, corrupção e música. Se emociona ao falar sobre reconhecimento do seu trabalho e as drogas. Acompanhe trechos da entrevista que ele concedeu a SelesNafes.Com.

 

Como foi que a música entrou na tua vida?

Osmar Júnior: Minha mãe era professora de educação artística. Por causa dela, todo mundo em casa sempre foi envolvido com arte. Eu sempre gostei de escrever e manifestei a vontade tocar um instrumento musical. Então, quando eu tinha 14 anos, ela me deu um violão e me matriculou com o maestro Oscar Santos. Eu tive sorte de ter aprendido literalmente com o mestre. Desde então não parei mais.

Como foi esse aprendizado com maestro Oscar Santos?

Osmar Júnior: Na verdade, eu fui aprender a tocar vários instrumentos, mas achei tudo aquilo muito trabalhoso. Então resolvi aprender apenas a tocar violão. O mestre Oscar me dava aulas particulares em casa, e por causa dessa proximidade nos tornamos grandes amigos. Ele tinha autoridade e formação para dar aula de violão popular. Ele era realmente um grande mestre.

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E os estudos nesse meio tempo?

Osmar Júnior: Quando eu terminei o primeiro grau meu pai me matriculou em um curso de lanternagem e rebobinagem no Senac. É claro que isso não ia dar em nada, até porque eu tinha como colegas de curso a dupla Lurdico e Vardico. Era só presepada. Resultado: não aprendi coisa nenhuma. A minha praia era realmente a música.

Como foi tocar vários anos na banda Placa?

Osmar Júnior: Eu comecei no contrabaixo. Passei pra guitarra e depois fui cantar. Fiquei oito anos com eles. Acompanhava a banda em festivais de rock e carnaval. Mas eu não queria só isso, então eu comecei a cantar minhas próprias músicas na banda. É bom lembrar que naquela época era quase proibido cantar uma música sua. As pessoas vaiavam. Queria mostrar meu trabalho e que a banda me acompanhasse. Eu disse: gente, temos que sair disso, de cantar só em festival. Eles não aceitaram, e nos separamos.

Conte sobre seu envolvimento com as drogas?

Osmar Júnior: Eu já fui muito errado nessa vida. Me considero um marginal, e transpiro isso nas minhas músicas. Eu já usei drogas por muitos anos. Dei muito trabalho, perdi e ganhei coisas. Hoje já estou livre e não desejo isso pra ninguém.

Qual era a nova identidade musical que você buscava?

Osmar Júnior: Eu ouvia Ruy Barata e Pinduca. Me perguntava: como é que o cara pega um ritmo da terra dele e faz com que toque até no Japão? Aí comecei a estudar o cassicó, reggae, zulk e decidi fazer a minha própria música. Que denúncia desigualdade social, a corrupção, a politica de cabresto, a censura, o sofrimento.

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Como foi essa parceria com Zé Miguel, Val Milhomen e Amadeu Cavalcante?

Osmar Júnior: Eu, Val Milhomen, Zé Miguel, Amadeu Cavalcante, Rambolde Campos e muitos outros começamos a tocar em bares. Participamos de festivais. Por volta de 1989, gravamos o disco Sentinela Nortente. O reconhecimento foi muito grande e a partir dai não paramos mais. Tínhamos os mesmos ideais e nos demos muito bem. A nossa parceria musical virou uma grande e sólida amizade.

Conte um pouco sobre a coletânea que você está escrevendo?

Osmar Júnior: É uma reunião de pensamentos e ideais que escrevo para jornais. Não pretendo publicar agora, só daqui a um ano. Mas ela será um pouco de mim e do que eu penso.

Você se considera um poeta?

Osmar Júnior: Eu sou mais músico do que poeta. Pelo fato de compor muitas músicas, as pessoas me consideram poeta, mas eu não sou. Eu tenho a característica de me doer pelo povo, mas não sou não.

Como você lida com o sucesso?

Osmar Júnior: A maioria dos meus amigos corre atrás do sucesso. Eu corro dele. Quando eu viajava, para São Paulo, por exemplo, era para aprender. Acabei fazendo grandes amigos por onde passei. Conheci grandes ícones como o Cazuza, Paralamas do Sucesso. Mas não quero que as pessoas me associem somente a isso. Só quero mostrar meu trabalho. Sucesso? Tô fora.

Quando se emociona ao falar sobr as drogas

Como foi a experiência de tocar fora do Brasil?

Osmar Júnior: Foi horrível! Os italianos são muito caretas. Nos viemos de lá quase que deportados. Eles queriam que eu dormisse 10 horas da noite, não podia fazer barulho depois das nove. Eles queriam que eu tomasse apenas uma garrafa de vinho. Eu tomava dez. Foi ficando insustentável. A minha banda foi convidada de governo para governo, mas eu só fui dar trabalho. Definitivamente não gostei.

Na tua concepção, o que é a música amapaense hoje?

Osmar Júnior: Quando Mozart tocava para a corte o trovadorismo (recitais de poesia na idade média) era marginal. Eu acho que não mudamos muito não. Porque a gente toca ainda para o rei, governador, prefeito. Só tem destaque quem é parente de politico. Claro que temos grandes cantores, mas só aparece na mídia quem o governo quer. A nossa música continua em ótimo nível, eu vejo muitas pessoas com talento, mas ainda falta fomento nisso tudo. As pessoas precisam valorizar e conhecer o que é nosso.

Quais as inspirações de suas músicas?

Osmar Júnior: O Norte do Brasil. Nós somos discriminados, somos o quintal do Brasil. A Amazônia para o resto do país ainda é um lugar de pessoas inferiores. A região é inferior, o deslocamento é precário e falta infraestrutura. Eu comecei a compor músicas baseadas nisso. Aqui todo mundo escondia tudo, como até hoje se faz. Eu via nosso ouro saindo, nossa água, nossas riquezas. Se no país havia coronelismo, aqui no Amapá era bem pior.

Foi em cima desse patriotismo que nasceu o Movimento Costa Norte?

Osmar Júnior: Assim nasceu o movimento. Nós pensávamos no Amapá como uma das maiores colônias agrícolas do Brasil. Em um lugar melhor, que oferecesse o mínimo de dignidade para o nosso povo. As reuniões aconteciam no bar do Lennon, onde tocavam Vanildo Leal e Patrícia Bastos. Queríamos passar essa mensagem através da música. Assim, divulgamos o movimento fazendo shows. O nosso povo não tinha uma identidade, mas pensamos que a partir do movimento essa identidade ia se materializar. E seria desse jeito. Nós fizemos música popular mesmo.

A valorização do seu trabalho é grande?

Osmar Júnior: Eu vendi mais CD com Joãozinho Gomes na Alemanha, no especial Brasil 500 anos, do que na minha carreira toda no Amapá. Foram mais de 20 mil exemplares. Fora do Brasil a valorização é maior porque não tem uma TV que controla a cabeça do cara. Têm emissoras muito boas, mas fico me perguntando até quando a televisão vai controlar o povo e ditar o que deve ou não ele fazer?

Como é ser um compositor regional?

Osmar Júnior: Eu consegui ser um compositor regional e nisso me apaixonei. Mas tem um grande problema: o regionalista acompanha o estado. Por exemplo: a Bahia tem vários cantores regionais, eles vão estourar porque o sistema cultural funciona. Belém funciona com o brega. O Amapá não funciona. Parece que é uma coisa proposital. Entra governo e sai governo e as nossas verbas públicas são aplicadas em serviços onde sempre tem por trás uma campanha politica. O trabalho é feito com dedicação, mas não há tanto reconhecimento.

O que você quer para o Amapá?

Osmar Júnior: Eu queria que o Amapá crescesse de tal forma que o turismo e a cultura fossem a bandeira desse povo. É triste depender de prefeitura e governo. Eles seguram do jeito que está porque isso é bom para eles. O cara é conhecido lá fora, mas quando chega aqui não tem nada. Isso aconteceu comigo. A juventude está adoecida. Os jovens não são burros, mas não estão nem aí para toda essa sujeira, corrupção, enfim, pra nada que acontece ao redor deles. Eu fico muito feliz com manifestações como o grupo Pena e Pergaminho, Coletivo Palafita e Liberdade ao Rock. Esses jovens valorizam aquilo pra que a sociedade fecha os olhos. É esse tipo de atitude que eu quero para o Amapá.

 

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