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Se sobreviver, Raoni Almeida Ramos, de 20 anos, nunca mais será o mesmo. Acadêmico de direito e bolsista de uma faculdade particular em Macapá, ele foi alvejado por um tiro de cartucheira depois de tirar uma brincadeira com o primo conhecido como Osmar, no dia da final do campeonato carioca. Quatro dias depois, o rapaz reconhecido por colegas e professores pelo esforço fora do normal para se formar, passou a lutar pela vida em um leito hospitalar.

Segundo testemunhas, os dois acompanhavam a final do campeonato carioca entre Flamengo e Vasco, e o clima de rivalidade era propício para as brincadeiras entre os primos. Ao final da partida, Raoni, que é torcedor do Vasco, brincou com primo flamenguista por conta do gol irregular que deu o título ao rubro negro. Um comentário que levou Osmar a ameaçar Raoni de morte, dizendo que por conta do comentário ainda ia levar um tiro.

Maria de Nazaré, mãe de Raoni: "ele disse que ia ser doutor"

Maria de Nazaré, mãe de Raoni: “ele disse que ia ser doutor”

Raoni não levou a sério a ameaça e continuou as provocações, tirando a camisa e balançando na frente Osmar. Irritado com a atitude, o flamenguista pegou a bicicleta e foi embora.

Depois do jogo, Raoni foi bater uma bola com os amigos. Quando retornou, por volta das 7 horas da noite, Osmar o esperava com a arma em frente a sua casa, localizada no pólo agrícola do KM-09, próximo à BR-210. “Eu ouvi o tiro e corri para ver o que tinha acontecido. Minha sobrinha, que viu tudo acontecer, correu na minha direção dizendo que o Raoni havia levado um tiro, e que estava me chamando”, contou a mãe da vítima, Maria de Nazaré Lima, de 38 anos.

Ela lembra que as últimas palavras que o filho disse antes de perder a consciência foram: “Mãe, o Osmar destruiu um grande sonho que eu tinha na vida. Está tudo acabado. Mas não chora mamãe, continua sua vida correndo atrás dos seus sonhos”.

O rapaz foi levado às pressas para o Hospital de Emergência com a ajuda de um vizinho. “O atendimento foi rápido. O meu filho foi levado para a sala de cirurgia imediatamente porque havia perdido muito sangue. A cirurgia demorou aproximadamente sete horas”, contou Maria de Nazaré.

Os médicos retiraram 42 caroços de chumbo do corpo de Raoni. Mas o pior de tudo é que ele perdeu um rim. Os estilhaços atingiram os dois lados do pulmão, o intestino grosso e os dois rins. Os médicos disseram aos familiares que o estado do rapaz é muito grave, e pouca coisa podem fazer.

Lúcio Lemos, amigo de Raoni.

Lúcio Lemos, amigo de Raoni.

Assim que possível, Raoni passará por outra cirurgia para transplante de rim, pois o que não foi retirado não está respondendo às necessidades do corpo. “O médico disse que temos que aguardar para ver se ele responde positivamente aos medicamentos. Não há como fazer outra cirurgia agora, por conta das sequelas do primeiro procedimento”, contou Maria de Nazaré. Segundo ela, o rapaz já teve várias paradas cardíacas, mas foi reanimado.

Osmar fugiu para o município de Pedra Branca do Amapari e ainda não foi encontrado. “A última notícia que tivemos foi que ele está em Pedra Branca fugindo do flagrante, mas que logo estaria se entregando a polícia para responder pelo crime”, disse Maria de Nazaré.

 

Superação

Raoni é um jovem pobre, morador de uma localidade rural de Macapá. Um rapaz de 20 anos que encontrou nos estudos a oportunidade de dar uma vida melhor à mãe, que é produtora rural. Porém, todo o esforço desse acadêmico de direito pode ter um fim trágico. Segundo os familiares, inveja pode ter sido o real motivo para a atitude do primo.

Em 2012, Raoni conseguiu por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) uma bolsa integral para cursar direito em uma faculdade particular, localizada há cerca de 10 quilômetros de sua casa. Raoni fazia esse percurso a pé todos os dias. “Nós víamos o esforço dele para continuar os seus estudos. Dentro de sala ele é o mais esforçado e está entre os mais inteligentes da turma. Ele tem grande facilidade para gravar as leis que regem os nossos códigos”, lembra o colega de turma, Lúcio Lemos.

Por ser o filho mais velho, Raoni é o homem da casa e ajuda sua mãe a sustentar dois irmãos mais novos. “A rotina do meu filho era pesada, mas ele sempre estava com o sorriso no rosto. Acordava cedo para trabalhar nas fazendas das proximidades carregando carvão, enchendo carretas com areia e outros bicos que aparecem para complementar na renda familiar. Às 6 horas da tarde chegava correndo em casa para tomar banho e começar a caminhada para mais um dia de aula. Sempre me incentivando a sonhar, afirmando que a nossa vida iria mudar quando ele se formasse. Ele dizia que eu teria um filho doutor”, explicou Maria de Nazaré.

Os amigos de faculdade com melhores condições financeiras sempre ajudavam Raoni. Eles davam carona pra ele chegar mais cedo em casa. “Ele é um exemplo de batalhador, sempre com o sorriso no rosto apesar da correria do seu dia-a-dia. Agora o que podemos fazer é ajudar a família dele e rezar para que nosso amigo consiga sair dessa, e consiga o seu grande sonho que é dar uma vida melhor a mãe e aos irmãos” contou Lúcio Lemos.

 

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