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Quem nunca ouviu falar do delegado Ronaldo Coelho? Famoso pelo jeito linha dura e pelas operações que resultaram na prisão de, nas contas dele, pelo menos mil criminosos procurados pela Justiça, ele anda sumido desde que, por motivos políticos, foi retirado do comando da equipe de Captura da Polícia Civil do Amapá. Mas o que será que ele anda fazendo?  Fomos atrás da resposta, e descobrimos que um dos delegados mais dedicados e bem sucedidos do Estado está na “geladeira” da Polícia Civil.

Pai de duas filhas, Ronaldo Nazareno da Silva Coelho, 47 anos, está em outro setor do “sistema”, como descreveria o filme Tropa de Elite. Longe das ruas e das operações policiais, ele foi transformado em assessor jurídico da Secretaria Estadual de Justiça e Segurança (Sejusp), realiza serviços burocráticos feitos, na maioria das vezes, em sua própria casa, onde aguarda, um dia, o chamado para voltar às investigações.

A maioria dos trabalhos ele faz em casa como assessor jurídico da Sejups, uma forma de estar mais perto das filhas

A maioria dos trabalhos ele faz em casa como assessor jurídico da Sejups, uma forma de estar mais perto das filhas

Por causa do seu jeito de ser e de falar (como num tom de repreensão), Coelho enfrentou momentos de desavenças, até mesmo com colegas de profissão, que o taxavam de arrogante, prepotente e exibicionista. Por outro lado, a população o tratava como um herói amapaense.

O site selesnafes.com fez uma visita ao delegado, que hoje tem como principal preocupação a proteção da família. Isso por conta dos vários inimigos que acumulou em seus 20 anos dentro da Polícia Civil do Amapá. Acompanhe os principais trechos da entrevista.

Selesnafes.com: Algumas pessoas lhe chamam de exibicionista. O que o senhor acha disso?

Ronaldo Coelho: (Risos) Acho que tudo isso são pensamentos de pessoas que não alcançaram o reconhecimento na profissão como eu alcancei. O que essas pessoas precisam saber, é que é preciso muito trabalho para ser reconhecido profissionalmente. Eles acham isso só porque eu costumava aparecer muito nos noticiários policiais. Mas eu não me acho exibicionista, muito pelo contrário. O que eu fazia era o meu trabalho com seriedade e competência, pois sabemos que a impressa está ali todo o tempo atrás da história e eu tinha essas histórias para oferecer. E diferentemente do que fazem alguns delegados, eu não me fechava dentro do gabinete e guardava a informação. Pelo contrário, dava a minha cara a tapa para mostrar para a sociedade a competência da minha equipe, que trabalhava duro em uma profissão perigosa, que é manter o cidadão a salvo de marginais.

Apaixonado por futebol e por passear de bicicleta, perdeu boa parte da liberdade

Apaixonado por futebol e por passear de bicicleta, perdeu boa parte da liberdade

SN: Qual o caminho que o senhor traçou para chegar à Polícia Civil do Amapá?

RC: Bom, tudo começou no ano de 1990, quando me formei em Direito na Universidade Federal do Pará (UFPA). Logo em seguida passei a exercer a profissão de advogado. Não passei muito tempo advogando. Em 1993, consegui um caso que me abriu caminho para ser assessor jurídico na Procuradoria do Estado do Amapá. Naquele ano, eu defendi o caso de uma juíza acusada de ter facilitado absolvição de um acusado por um crime. Consegui defender bem o caso e com sucesso no final do julgamento. Ganhei o reconhecimento dos magistrados da época, que me abriram espaço para chegar ao Amapá.

SN: Mas como o senhor chegou a Polícia Civil?

RC: Cheguei ao Amapá em 1993 e no ano seguinte prestei concurso para a Polícia Civil. A minha primeira pasta foi a de Entorpecentes. Com o tempo analisei os déficits que tinham nas delegacias e comecei a traçar o planejamento do que seria o início da equipe de Captura, criada 11 anos depois, em 2005.

SN: Como foi criada a equipe de Captura?

RC: Eu observei que faltava uma equipe que ficasse responsável pelo cumprimento dos mandados de prisão emitidos pela Justiça a partir de requerimentos das delegacias ou do Ministério público. E que também pudesse desafogar a grande quantidade de mandados que abarrotavam as mesas dos delegados. Por exemplo, quando alguém fugia do Iapen, a notícia era repassada para a Secretaria de Segurança Pública que avisa os batalhões militares. Mas os policiais militares não tinha como ir atrás desses fugitivos, eles esperavam o bandido aparecer para que a prisão fosse efetuada. Isso também acontecia nas investigações. Quando estava na Delegacia de Entorpecentes, por exemplo, realizava toda a investigação e ao final pedia o mandado de prisão, porém não tinha uma equipe que tivesse a incumbência específica de realizar a prisão. Foi então que sugeri ao delegado Geral da época, Paulo Sérgio (Martins), que fosse criada uma equipe que tivesse a responsabilidade de cumprir os mandados de prisão. Ele gostou da ideia e me autorizou a montar uma equipe de captura em 2005.

A imprensa o procura porque sempre tinha notícia para dar

A imprensa o procurava porque sempre tinha notícia para dar

SN: Esse foi o momento auge de sua carreira?

RC: Com certeza. Foi assim que ganhei o reconhecimento de colegas, da imprensa e das pessoas mais necessitadas que viam no meu trabalho algo bom para a sociedade. Só para ressaltar, havia casos de mães que me procuravam para entregar os próprios filhos, por não saber o que fazer com eles. Isso é respeito e reconhecimento. Foram cinco anos fazendo esse trabalho, que parecem esquecidos pela atual gestão que não me deu nenhum reconhecimento.

SN: O Senhor tem mágoa sobre essa falta de reconhecimento?

RC:  Eu sou uma pessoa muito visada em função das prisões que fiz. E isso me rendeu e rende até hoje ameaças de morte. Esse fato não foi levado em consideração quando resolveram tirar os profissionais que faziam a minha segurança e das minhas filhas. Isso me trouxe mágoa, mas não fiquei magoado por ter ficado sem o trabalho em si, até porque sei que ninguém fica eternamente no mesmo cargo. Para se ter uma ideia, logo que fiquei sem proteção nenhuma, recebia cartas em minha caixa de correios com ameaças de morte. Já percebi várias vezes pessoas em situação suspeita me seguindo, e mesmo argumentando que não podia ficar desguarnecido, a Corregedoria não atendeu aos meus pedidos, principalmente quanto a proteção das minhas filhas.

Coelho passa os dias lendo, esperando ser chamado um dia para voltar às investigações

Coelho passa os dias lendo, esperando ser chamado um dia para voltar às investigações

SN: E como foi ficar sem proteção?

RC: Parei de fazer várias coisas. Parei de andar de bicicleta, por exemplo, um passatempo que eu gostava muito. Se não fosse pela ajuda de agentes que são meus amigos, com certeza eu já teria sofrido um atentado. Já pedi ajuda deles quando via que estava sendo seguido. Mas a falta de reconhecimento por parte da atual gestão da Polícia Civil me faz pensar se realmente valeu a pena traçar esse caminho com amigos e inimigos durante quase 20 anos.

SN: E hoje? Qual o seu plano de vida?

RC: Aguardo poder voltar a assumir alguma delegacia, menos a de Atos Infracionais (Deiai), pois não sei lidar com adolescentes (Risos). Mas quero voltar, quem sabe retomar meu trabalho na equipe de Captura. Em mais cinco anos ganho minha aposentadoria e me dedicarei a ver as minhas filhas crescerem, se formarem e construírem um belo caminho pela frente. Espero voltar antes que a equipe seja totalmente desarticulada dentro da PC.

SN: E atualmente, o senhor pode se dedicar um pouco mais a família?

RC: O reconhecimento da população quanto ao meu trabalho me mostra que realmente eu estava fazendo algo de bom. Ainda sou reconhecido nas ruas. As pessoas ainda sabem quem é o delegado Ronaldo Coelho. Esse reconhecimento pode me ajudar nessa na fase da minha vida que está chegando. É que a minha filha mais velha que está entrando na fase dos namoricos e me dando trabalho (Risos). Outro dia veio aqui um rapaz que ficou muito errado quando viu quem era o pai dela. Aí descobri que o negócio não vai ser fácil. Quando somos jovens falamos das filhas dos outros. Hoje sei que não devemos falar nada, principalmente quando se tem duas filhas (risos).

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