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Certa vez eu queria me afastar de tudo, procurei a Praça Beira-Rio, um lugar onde eu pudesse estar mais só, e pudesse pensar mais e refletir sobre meus problemas e sobre a tristeza que enfrentava na minha vida naquele momento. Quando sentei na grama desiludido da vida, com boas razões para chorar, pois tinha a impressão que o mundo estava desabando e tentando me afundar. E se não fosse razão suficiente para arruinar o dia, um garoto ofegante, que estava cansado de tanto correr, chegou suado mas muito alegre perto de mim. Ele aparentava ter 7 anos, parou na minha frente, cabeça baixa e olhando pra longe, e disse cheio de alegria: 
– Veja o que encontrei ali atrás, que lindo! 
Na sua mão tinha uma flor. E que visão lamentável! Estava toda murcha com muitas pétalas caídas. 
Querendo ver-me livre o mais rápido possível do garoto com sua flor murcha, fingi um sorriso sem graça e me virei para o outro lado. 
Mas ao invés de recuar, ele sentou-se mais próximo e ao meu lado, levou a flor ao seu nariz e falou com estranha surpresa: 
– O cheiro é ótimo, e ela é tão bonita também… Por isso a peguei. Pegue-a, é sua, eu trouxe pra você! 
A flor que ele me deu estava morta ou morrendo. Nenhum pouco bonita, mas eu sabia que tinha que pegá-la para ver se ele ia logo embora e me deixava só com as minhas tristezas, ou ele jamais sairia de lá. Então me estendi para pegá-la, e de forma áspera falei: 
– Dê-me essa flor aqui! 
Mas, ao invés de colocá-la na minha mão, ele a segurou no ar sem qualquer razão e senso de direção, ele a afastou da minha direção em um movimento estranho. 
Foi somente nessa hora que notei, pela primeira vez, que o garoto era cego, e que não podia ver a flor que tinha em suas mãos. Senti minha voz sumir naquela hora. Senti um nó na garganta. Lágrimas despontaram ao sol daquele fim de tarde, enquanto lhe agradecia por escolher a melhor flor daquele jardim. Refleti.
– De nada… – respondeu-me sorrindo. 
E então voltou a brincar sem perceber o impacto que ele tinha provocado na minha vida naquele dia. 
Sentei-me e comecei a pensar como ele conseguiu enxergar um homem tão cheio de mágoas como eu?. Como ele sabia do meu sofrimento interior, que desapareceu com a lição que aprendi naquele dia? Talvez no seu coração ele tenha sido abençoado com a verdadeira visão transcendental, aquela que vê o coração. 
Através dos olhos de uma criança cega, finalmente entendi que o problema não era o mundo, e sim EU! E por todos os momentos em que eu mesmo fui cego, agradeci por ver a beleza da vida e apreciar cada segundo que é só meu. Então levei aquela flor ao meu nariz e senti a fragrância de uma bela flor, uma beleza que só eu não conseguia enxergar. Sorri enquanto via aquele garoto se afastando. Ele plantou em mim uma semente que me fez ver um outro sentido da vida. Assim como a água dá à planta o milagre das flores, um espírito alegre faz brotar em nós uma vida de felicidade permanente. As melhores coisas da vida são vistas não com os olhos, mas com o coração!

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