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Tem gente que desconfia da poesia, e com toda razão. A poesia não é flor que cheire, nem ar que se respire. A poesia não é boa companhia. E sabe o porquê? Porque a poesia fala de flor que nasce no asfalto e de criança que mora no lixo. E a poesia, quando você se acostuma a tê-la a seu lado, acaba te levando para lugares inesperados, situações inusitadas e paixões avassaladoras, que podem ser por uma pessoa ou por uma bandeira de luta.

Tem gente que desconfia da poesia, porque ela pode mudar pra sempre uma pessoa, e até mesmo uma cidade ou mesmo um país. Pra mim, o verso mais emblemático do fazer poético que conheço é do Maiakovski e diz: “Se queres ser imortal, canta a tua aldeia”.

E foi exatamente isso que Paulino Barbosa, pedagogo, estudante de jornalismo e professor em uma escola municipal de ensino fundamental, Paraíso das Acácias, no Congos, bairro da periferia de Macapá, famoso por seu lado desassistido e violento, se propôs a fazer:

Reuniu os 28 alunos de sua turma do quinto ano e lhes lançou um desafio: descrever em texto poético o lugar onde eles moram. Aí nasceu o projeto “Meus primeiros versos”.

Realizado no período de maio a agosto, o projeto tinha como objetivo fornecer os elementos da linguagem poética para que ao final os alunos pudessem produzir um poema que retratasse o lugar onde vivem. As poesias produzidas pelos alunos foram inseridas numa seleção onde a produção escolhida representaria a escola nas Olimpíadas de Língua Portuguesa, do Ministério da Educação.

Foram realizadas diversas oficinas em sala de aula para que os alunos pudessem ter contato com as definições de poesia e seus estilos. Começaram primeiro rabiscando as primeiras rimas, depois a construir os primeiros versos. Sempre com um exercício constante de refletir as coisas do seu lugar.

“Mas foi a partir da oficina poetas da minha terra, que os alunos começaram a ganhar autonomia para escrever sobre os seus lugares. Nada de falar da Fortaleza, ou do Marco Zero. É o lugar onde eles moram, o bairro, a rua, suas belezas e dificuldades que interessava.” Disse o professor Paulino, que começou o trabalho mostrando a turma pra que serve a poesia. “Nesta oficina trabalhamos os poetas locais. As músicas regionais ajudaram os alunos a conhecerem melhor o lugar onde vivem. No entanto, o maior desafio foi fazer os alunos olharem para as suas paisagens com olhar poético. Um olhar de alguém que está vendo aquele espaço pela primeira vez.” Explicou.

E a galerinha parece ter entendido muito bem e se apropriado do jeito delicado com que a poesia mostra o belo onde muitos veem apenas tristeza. Mas sem perder o travo de denúncia tão comum ao poema social, que é, acredito, o estilo com que os meninos e meninas (faixa etária de 10 anos) versejam o lugar onde moram. Basta ver o poema de Dhonatha Cavalcante, 10 anos, pra ser ter uma ideia da importância desse projeto para pensar um novo modelo de cidade.

 

 

 

 

NOS QUINTAIS DE MACAPÁ

 

O lugar onde moro

É uma área de ressaca

Cercada por esgoto

Com muito lixo e barata.

 

Mas tem uma coisa que eu gosto

É de brincar com os peixinhos

Que nadam debaixo de casa

Esperando cair um farelinho.

 

Pra chegar até lá

É preciso atravessar a ponte

Tem muita tábua quebrada

E pessoas caindo aos monte.

 

Sem ter quintal nas casas,

As crianças brincam no lago

Nas tampas de geladeiras

Navegam ao mundo encantado.

 

À noite é muito comum

Polícia pegar ladrão

É bandido pulando no lago

Deixando a PM na mão.

 

A minha área de ressaca

É um paraíso pra malandro

Tem gente usando drogas

Matando e se acabando.

 

A revisão do material foi feita coletivamente, com os alunos ajudando uns aos outros  a melhorar os versos, sugerindo rimas. O resultado foi uma produção surpreendente. A qualidade dos poemas e das e dos desenhos que as ilustram falam por si.

Para Paulino este é um trabalho que não pode ser esquecido na memória de um computador ou nos quatro cantos de uma sala de aula. Por isso, está postando os poemas da turma em seu blog pessoal: paulino-barbosa.blogspot.com.

Mas os alunos querem ir além do que já conseguiriam e estão procurando patrocínio para publicar em livro a coleção com os 28 poemas e suas ilustrações.

 

Acesse o blog do Paulino, veja os poemas, comente e, principalmente, dê sua contribuição à poesia, esta poesia que quer mudar a realidade de algumas dezenas de crianças que vivem na preferia de Macapá e sobre ela lançam um olhar que vê além da pobreza ou do abandono, mas da esperança de que a beleza vença o medo e a esperança faça nascer um novo amanhã. Que pé pra isso que a poesia serve.

 

Manoel do Vale

 

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