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Em seus quase 30 anos de vida pública, o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) ainda não tinha experimentado ficar tanto tempo ausente de um pleito estadual. Só nas últimas semanas, na reta final do primeiro turno, ele decidiu trabalhar por uma candidatura. Davi Alcolumbre, senador eleito com quase 37% dos votos, pertence a um partido antagônico do ponto de vista da ideologia política, mas, por força das circunstâncias, acabou virando um aliado natural contra um inimigo comum,  o grupo de José Sarney, representado na corrida ao Senado por Gilvam Borges (PMDB-AP). No sábado passado, 4, véspera da eleição, o senador recebeu SelesNafes.Com em seu escritório em Macapá. Na pauta, apoio ao Senado e 2º turno para o governo.

SelesNafes.Com: Porque o posicionamento a uma candidatura só agora, no caso de Davi e Lucas?

Randolfe Rodrigues: É fato. Essa foi a eleição no Amapá que eu menos participei. Isso é resultado de um ciclo que começou com compromissos políticos da campanha que elegeu o prefeito Clécio (Macapá) em 2012. Esses compromissos estão encerrados agora em 2014. Com o fechamento do primeiro turno se fecha esse ciclo. Vou me envolver no 2º turno e apoiar quem for o adversário de Waldez Góes (PDT)

SN – Porque de Waldez?

RR – Nada atrasa mais o Amapá do que a corrupção e o patrimonialismo. Waldez representa um retrocesso.

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SN – Mas o senhor nunca teve preferência?

RR – Minha preferência é por quem puder derrotar Waldez, e tudo levava a crer que seria o candidato com menos rejeição, que seria Lucas (Lucas Barreto, com 2% de rejeição, ficou em 3º lugar na disputa de domingo). Mas se for o Camilo, eu o apoiarei desde o primeiro momento. (Camilo passou em segundo lugar com quase 28% dos votos)

SN – Mas o senhor tem uma afinidade maior com o Lucas, não é mesmo?

RR – Afinidade pessoal sim, e reconheço a importância dele para a minha eleição ao Senado em 2010. Mas com o Camilo a afinidade é mais política, e principalmente com (sendor) João Capiberibe (PSB, pai de Camilo, governador por dois mandatos). Eu o apoio desde 1988, quando eu era da União da Juventude Socialista aos 16 anos. Fui secretário de Juventude dele. Considero ele a maior liderança política que o Amapá já teve.

SN – O que o senhor acha que gerou essa rejeição tão alta ao governador Camilo Capiberibe?

RR – Acho que faltou mais diálogo. João Capiberibe tem alta capacidade de dialogar e congregar as forças políticas.

SN – Mas o senhor acha que Camilo Capiberibe acertou na gestão?

RR – Acho que ele pegou uma máquina púbica devastada. O erro foi na política, o erro foi não saber ouvir. No governo passado houve todas aquelas prisões, nesse governo nenhuma. Mas o erro na política pode ser corrigido.

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SN – O senhor acha que a imagem pessoal do governador contaminou a imagem da gestão?

RR – Não tenho dúvida disso. Claro que muita coisa precisa melhorar, a rede de saúde, por exemplo. Esse seria um erro que poderia ter sido evitado se o governo tivesse ouvido mais.  

SN – É por isso que o Waldez é tão popular? É porque ele sabe ouvir e dialogar?

RR – A popularidade dele é fruto de uma ação combinada com o grupo do senhor Gilvam Borges (dono de 16 emissoras de rádio e 2 estações de TV) que consiste na  agressão a adversários. Essa popularidade foi feita pelo marqueteiro. Eu tenho aversão à popularidade criada em laboratório.

SN – Já chega de PMDB no Senado?

RR – O PMDB é o retrato do que tem de mais atraso no Brasil. É o retrato do patrimonialismo português. Esse pessoal trabalha, mama nas tetas do Brasil desde Thomé de Sá.

SN – Mas se um dia o PSOL ganhar a Presidência o partido não vai aceitar apoio do PMDB?

RR – Algum governo tem que botar esse pessoal pra ser oposição. Mas a generalização é ruim, existe algumas figuras do PMDB que são exceção, como Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos, mas no geral é Gilvam, Renan (Calheiros, presidente do Senado) e Sarney. Essa turma não faz bem pro Brasil. Veja como são ruins pra gente: não temos telefonia celular eficiente e a Anatel, que deveria fiscalizar, é indicação do PMDB. Sem falar dos escândalos na Funasa?

SN – Mas o senhor acha que o Sarney não deu nenhuma contribuição?

RR –  Só a área de livre comércio? Existem outras 17 no país. O Linhão de Tucuruí foi trazido como investimento do Ministério das Minas e Energia, isso dito pela própria presidente Dilma Roussef. Disse isso na frente dele. O Sarney vai desmentir a presidente? Nunca! O Amapá deu 24 anos pra ele. Não digo que ele não fez nada. Cada homem público tem sua contribuição a dar, mas o povo foi mais generoso que a reciprocidade do Sarney.

SN – O senhor poderia ter apoiado outra candidatura ao Senado este ano…

RR-  A essa altura da campanha só existem duas candidaturas, Davi Alcolumbre e Gilvam Borges. A lógica é a mesma do segundo turno. Não voto nulo e nem desperdiço voto.

 

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