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Esta é uma crônica de pastores e ditadura militar e de uma menina que, por ter uma imaginação quase sem limites, é hoje uma das melhores escritoras que já li.

Na década de 1970, o Brasil ardia a febre terçã anticomunista; corriam nos céus da Amazônia os chupa-chupa e a ameaça do apocalipse. No meio de tudo isso, uma menina e seus medos de que o mundo acabasse sob a fúria dos quatro cavaleiros e suas pragas de fim de mundo.

Seu nome: Ester. Cabelos em desalinho. Talvez pelo nome, que remete à estrela, essa pequenazinha, menina de pensamentos desgarrados, vivesse no mundo da lua. Mas na Amazônia, cheia de seus caruanas e encantados, viver em estado de imaginações é quase tão natural quanto a chuva desabando pesada e volumosa na floresta, tal qual uma senhora gorda se esparrama na cadeira de macarrão.

O pai da menina era evangélico. E foi com ele que ela ouviu o pastor falar (daquele jeito dramático e desesperado que os pastores falam para por em delírio suas ovelhas) em apocalipse. The end. E não é que a menina viu o fim do mundo bem perto e se aproximando cada vez mais.

O Capital

O Capital

Impressionada e crente que deveria fazer alguma coisa que a preparasse para o fim do mundo, Ester resolveu fazer seu próprio bunker debaixo da casa pernalta de seus avós. Naquela época, era comum aos amazônidas construir suas casas sobre estacas a um metro, metro e meio do chão para aliviar o calor e manter os bichos indesejáveis longe da família.

E foi ali, debaixo do assoalho dos avós que a menina enterrou seus provimentos para o mundo pós-apocalipse: alguns punhados de feijão, arroz, farinha, as panelas da mãe e mais alguns brinquedos essenciais e os livro do Marx, o Capital, que seu pai guardava com zelo de colecionador na estante da casa.

Tal qual formiga, a menina seguia a trilha entre a casa dos pais e a dos avós carregando de tudo para seus ninhos de um palmo de profundidade.

Nessa época, os milicos demonizavam os comunistas pregando o terror nas pessoas. Qualquer ajuntamento de três ou quatro em qualquer esquina, depois da noite ter saído à rua, era motivo de desconfiança e de um baculejo providencial. Ninguém estava seguro. Pelas frestas das janelas todos vigiavam todos.

E o avô da menina Ester ficava na varanda vigiando o ir e vir da neta na sua ocupação já de alguns dias levando coisas para debaixo da casa. Mas ele só resolveu intervir quando viu os dois volumes de o Capital pesando nos braços da menina a caminho de suas covas rasas.

– O que é que você vai fazer com esses livros?

A menina quis correr, mas a autoridade do avô gritou mais alto, e ela estacionou a pressa junto às cordas do varal.

– O que você tá fazendo. Falou ele, ainda no tom elevado de sua autoridade.

– Vou guardar debaixo da casa, junto com a comida, pra quando o apocalipse chegar.

– E porque os livros do Marx?

– Porque meu pai disse que são livros muito importantes. Eu li, não achei grande coisa. Ele só fala de mercadoria…

– E como é que uma menina da sua idade iria entender Marx?

O avó, um velho simpatizante da “causa”, então se pôs a explicar a menina (didaticamente e olhando para os lados para ter certeza de que não seria surpreendido por nenhuma tropa ideológica), assim como falava aos companheiros de trabalho na Olaria de Macapá, sobre trabalho, mais valia, mercadoria, lucro e Marx:

– … Que foi quem pegou tudo isso e fez um dos mais importantes livros da história do conhecimento humano.

A menina ouviu tudo quieta e com uma rusga de preocupação a lhe franzir a testa. O grande apocalipse não era para aqueles dias, mas a luta dos velhos camaradas era, sim, urgente. 

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