Compartilhamentos

A chama azul do fogão indica que o gás vai acabar.  A leveza da chama azul anunciando o peso de toda uma engenharia que está por vir: catar o celular perdido entre os lençóis e roupas despidas de corpos espalhadas pela cama; depois descer para pedir ao dono da lanchonete, na entrada do prédio, o número de algum entregador de gás que seja Tim, pois não tenho crédito pra Vivo.

Tem muito de poesia no gás de cozinha morrendo logo cedo da manhã sem me dar garantias de que terá forças para aquecer a água do chá. Lá fora chove uma chuva branca, sem vento. É a fotografia em lento movimento que minha janela emoldura. Uma manhã leve. O gás acaba no ponto em que a água ferve. Aproveito e faço café ao invés do chá, só para agitar as ideias.

O peso da vida nos torna mais leves com o tempo.  No Japão, quanto mais velha vai ficando a pessoa, menos peso corpóreo ela carrega. É uma sabedoria milenar.

Nos hai kais de Bashô a leveza da lágrima é o inicio da grande viagem do poeta. A gravidade da lágrima caindo de um sorriso chorado, ou desaguando de um choro triste.

A lágrima rola

     dói bem leve

      o que virá agora?

 

E o gás que se foi em chama azul, uma das cores mais voláteis da lata de cores dos poetas. O almoço está comprometido. Não tem grana, não tem chama.

O peso de viver em um sistema econômico de cíclicas crises e de preços que sobem acompanhando a maré da super lua é cada vez mais grave que faz com que a pressão sobre nossos corpos seja insuportável.

Então eu sento e tomo meu café com toda a quietude da chuva branca. E o dia está só começando.

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