Compartilhamentos

 

São três horas da manhã. A cidade está calma, parece dormir. Cai sobre ela uma chuva moderada. Eu acordo como tenho feito todas as madrugadas nos dois últimos meses: exatamente nesse horário, num minúsculo apartamento no centro da cidade.

É o horário ideal para quem tem que dar conta de ler, resumir e fichar quatro livros de uma só vez e produzir pelo menos quatro artigos dentre os oito temas previstos no edital no qual me inscrevi com a esperança de abiscoitar uma vaga para o ensino médio profissionalizante como professor, lecionando a disciplina comunicação ou propaganda, não lembro direito.

A dificuldade de ler é grande desde que fui derrubado da bike e quebrei os óculos de grau e passei a espremer os olhos diante das páginas dos livros para conseguir um pouco de nitidez nas leituras.

Da única janela que dá pra rua vejo o Hotel Amazonas em ângulo diagonal. Mais ao fundo a boate Pecatos, de onde, às seis horas, saem os últimos clientes, felizes e barulhentos, para uma segunda-feira de chuva branca e fria.

Não consigo ver seus rostos sem meus óculos, o que os torna ainda mais anônimos.

Levanto e apago o fogo do café que começa a transbordar da cafeteira italiana, e me sirvo uma caneca cheia de um café forte ao qual acrescento duas colheres (das de chá) de açúcar.

Tomo os primeiros goles me divertindo com a imagem de dois travestis tentando se equilibrar sobre o salto enquanto fogem da chuva, correndo em direção ao táxi parado diante do hotel.

Depois volto minha atenção para o livro em que leio sobre Alan Turing, matemático britânico que quebrou o código da Enigma, a maquina alemã usada para criptografar as informações sobre a movimentação das tropas e navios aliados considerada indecifrável.

Turing era gay. Não com a liberdade que tinham aqueles dois lá embaixo correndo no asfalto molhado, exagerando nos gestos sua liberdade de opção sexual. Na Inglaterra da década de 1940 o sujeito podia pegar até dois anos de cadeia por bem menos glamour.

Compartilhamentos