Compartilhamentos

Faz dias que não sei o que se passa, levaram meu Neruda, apagaram meu sol.

São ainda seis da manhã de uma terça-feira de agenda cheia e o mundo continua o mesmo: confuso, violento e, ao mesmo tempo, belo para quem pode curtir uma praia ou um igarapé geladinho. Na cabeça, nada além de uma brisa jamaicana.

Acendo o fogão com o isqueiro para fazer o café violento de todas as manhãs, exceção para os sábados, domingos e feriados. Me enfio no banheiro para um banho frio. Banho de goteira, pois o chuveiro só oferece essa modalidade de banho. É a crise. Quando eu ainda podia pagar aluguel de um salário, a água era mais abundante e forte, quase uma esfoliação hídrica.

Penso nos Blues Etílicos e fica tudo de boa. De que vale viver no osso, se não se pode tirar um barato dessa vida, que não é pra qualquer um, mas apenas para os que sabem viver com cada vez menos, preservando o essencial à vida: a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

Sinto saudade do meu apartamento branco e laranja onde eu podia me espreguiçar à vontade. Hoje eu só consigo esticar os braços se colocar o corpo para fora da janela. “É a crise, Creusa!” Falo para meus surdos botões.

Crise é uma espécie de guerra onde não se vê o inimigo, apenas sentimos sua presença nos dígitos impressos nas etiquetas dos produtos nos supermercados e padarias, cada vez mais caras.

Tomo meu café com a alma em relevo e saio de casa assoviando uma música gostosa dos Beatles que fala de amor superando crises, o inexorável tempo, tudo, enfim, que não nos deixa viver um grande amor. Só os cafés pequenos.

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