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ANDRÉ SILVA – 

O Amapá foi destaque este mês na publicação de uma das revistas mais importantes da literatura brasileira, ligada à Academia Brasileira de Letras. O editor da Revista Brasileira convidou Joãozinho Gomes, um dos músicos mais conceituados da Região Norte, para publicar cinco de seus poemas inéditos no periódico.

João Batista Gomes Filho, nasceu em Belém do Pará no dia 20 de outubro de 1957. Aos doze anos, escreveu seus primeiros poemas descobrindo assim, sua vocação para a arte.

Há mais de 20 anos morando no Amapá, Joãozinho Gomes tem composições gravadas por grandes artistas nacionais e uma delas virou uma espécie de hino amapaense, Jeito Tucujú (vídeo abaixo).

Em entrevista ao Site SelesNafes.Com, Joãozinho falou sobre a dificuldade de “viver com qualidade” da música no Amapá, da parceria com artistas nacionais, como surgiu o convite para publicar na Revista Brasileira e da necessidade de o Amapá possuir uma política verdadeira de incentivo à música. 

Quem é Joãozinho Gomes?

Sou um caboclo do Norte da Amazônia, nascido e criado no Pará e há 24 anos resido no Amapá. Exatamente no dia 24 de dezembro fiz aniversário de chegada aqui no Estado.

Quando a Poesia entrou na sua vida?

Comecei a produzir os primeiros poemas com doze anos, mas só aos 17 eu me encontrei como poeta.

Joãozinho Gomes, músico e poeta que veio do Pará participar da história do Amapá

Joãozinho Gomes, músico e poeta que veio do Pará participar da história do Amapá

Qual é o seu nome de batismo?

João é sempre chamado de Joãozinho em casa pela mãe e avós. Eu adotei esse nome, quer dizer, me deram o Joãozinho, mas meu nome é João Batista Gomes Filho.

Recentemente você teve cinco poemas publicados em uma, que é considerada a mais importante revista da literatura, a Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras. Como surgiu o convite?

Aconteceu o seguinte: eu lancei o livro “Flecha Passa”, e o poeta José Inácio Vieira de Melo, que é meu parceiro e amigo, leu e ficou impressionado. Ele me perguntou como estava a distribuição e eu disse que não estava boa. É que o livro foi lançado de forma independente, sem editora. Eu mesmo distribuía o livro.

Então ele disse que o trabalho precisava pelo menos chegar às mãos certas, e me deu uma lista com uns 25 nomes de pessoas importantes na literatura, nomes famosos. Ele me aconselhou a enviar uma cópia para cada uma dessas pessoas. Eu mandei.

Foi muito legal, porque eu recebi um retorno maravilhoso das pessoas dizendo que o livro era maravilhoso, fizeram comentários muito bons. Um dia, quando cheguei em casa, havia uma carta para mim, escrita de próprio punho, que é uma coisa rara, do professor Marcos Lucchesi, que é ocupante da 15ª cadeira da Academia Brasileira de Letras e que é editor da Revista Brasileira.

 

Essa revista publicou obras de vários escritores famosos. Ele teceu alguns comentários sobre o livro e me convidou para publicar cinco poemas inéditos na revista. Me deu todos os caminhos para seguir e com quem falar. É claro que aceitei. Como eu estava escrevendo o novo livro, Sendas de Ápacam (que é Macapá ao contrário) não tive trabalho, selecionei os que estavam prontos e enviei. E eles foram publicados nessa edição mais recente da revista.

O livro “A flecha Passa” é seu primeiro livro não é? Então fala um pouco dele. Em que você se inspirou para escrever?

O livro na verdade é uma coletânea de poesias que eu escrevi desde os quatorze anos até 2005. Eu tive que escolher alguns poemas entre muitos para fazer o livro. Separei mais de cem. Depois que fiz a seleção, fui ler o livro e percebi que havia uma uniformidade nos poemas. Como eu li muito mitologia grega na juventude – eu adorava essas histórias -, isso refletia na minha poesia. Então, quando fui selecionar haviam vários personagens da mitologia.

A Flecha Passa abre os caminhos da poesia para Joãozinho Gomes

A Flecha Passa abre os caminhos da poesia para Joãozinho Gomes

Joãozinho Gomes é mais conhecido pelas músicas que escreve e que canta, então conta como foi que a música entrou na sua vida?

No mesmo período da literatura. Quando eu tinha 17 anos entrei na universidade para fazer agronomia e paralelamente comecei a escrever. Mas a música sempre se sobrepôs à poesia. É que a poesia é uma coisa mais solitária, e eu me dava o direito de deixá-la mais escondida. Quando eu estudava conheci meu primeiro parceiro na música, Raimundo Nonato, o Lobel. Nós ganhamos o primeiro festival de música da faculdade. Começou ali.

Você já tem muitas composições interpretadas por artistas nacionais, artistas de renome.

Sim. O parceiro mais recente é Zeca Baleiro, que recentemente gravou uma música minha que até foi tema de novela na Record. Além dele, tem o Flávio Venturini, Jane Duboc, Selma Reis, Claudio Nuti, Renato Brás e por aí vai. São muitos. A medida do possível eu quero conciliar poesia e música. Mas em 2016 quero me dedicar mais à poesia.

Tem alguma parceria que você consideraria mais importante?

Tem aquelas músicas que ficam marcadas. Não que eu considere que sejam mais bonitas ou melhores, mas no meio desse bololô tem uma que eu acho que tenha uma grande importância que é “Sabor Açaí”, que eu fiz em parceria com Nilson Chaves, que a Leci Brandão gravou. Tem outras, como “Jeito Tucuju” que é um hino nosso. Tem “Pérola Azulada”, que é minha e do Zé Miguel. Nacionalmente, além de “Sabor Açaí”,  tem “Você é Má” que virou tema de novela e tudo.

O poeta que tem música até em novela

O poeta que tem música até em novela

Você acha possível viver de música aqui no Amapá?

Não. Eu acho que a gente precisa ter espaço para trabalhar, e para ter isso é necessário uma política cultural que crie esses espaços. Hoje, você não tem como fazer seu show e ter um bom retorno financeiro. Eu conversava com o Val Milhomem, e nós dizíamos que conseguimos ter reconhecimento popular do que fazemos. Mas não conseguimos transformar isso em qualidade de vida. Não é possível viver da nossa arte por conta da falta de uma política cultural que crie um calendário em que você tenha trabalho o ano todo.

Você considera que é preciso ter investimentos na cultura?

É preciso que o poder público tome conta disso. Estou propondo junto com outros artistas zerar tudo e achar uma forma de criar uma política cultural que o artista possa ganhar dinheiro para sobreviver. Tem artistas que vivem disso, que é o meu caso e de outros como Osmar Junior, Zé Miguel, Amadeu, que fizeram tanto pela música amapaense. Todos esses caras vivem só de música, e ninguém vive bem. Aparentemente, as pessoas não sabem disso, mas ninguém vive bem. O Amapá é tão falado pela música que produz. É tudo de bom. Mas os artistas precisam viver dela, e para viver dela, é preciso uma política cultural.

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