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Delegado da Polícia Civil há oito anos, o paulista Fábio Araújo, de 34 anos, coordena as operações pela PC no município de Oiapoque há quase dois anos. Em entrevista ao SelesNafes.Com, ele contou suas experiências na área de fronteira com a Guiana Francesa, onde existe a preocupação do aumento da criminalidade com a abertura da ponte binacional.

Ele comentou sobre as ameaças que o seu colega, delegado Charles Corrêa, vem sofrendo, e a sobre a conversa que teve com o ministro da Defesa, Aldo Rebelo, em sua visita ao município no mês passado.

Acompanhe os principais trechos da entrevista, concedida na Delegacia Geral de Polícia, em Macapá.

Delegado Fábio

Delegado Fábio Araújo: há dois anos comandando a PC em Oiapoque

O senhor sempre trabalhou no interior?

Não. Trabalhei primeiro na capital, no Ciosp do Pacoval. Depois fui para Pedra Branca do Amapari e Serra do Navio. De lá voltei para Santana. Depois fiquei dois anos na presidência da Associação dos Delegados, à disposição do Estado, representando a classe. Saindo de lá, fiquei um ano atuando em Macapá e há dois anos estou em Oiapoque.

O que significa ser policial civil na fronteira?

Significa ser uma pessoa ousada, que trabalha com muitos desafios. Um deles é administrar muito bem o aparelhamento de segurança que tem em mãos para dar uma resposta efetiva para a sociedade.

Quais os crimes mais comuns por lá?

Temos muitos registros de crimes contra o patrimônio, furtos e assaltos. Também tem os casos de brigas entre pessoas. Em Oiapoque existem muitos bares e boates, e a ingestão de bebidas alcoólicas nesses lugares acaba gerando as brigas, algumas até com mortes. Aliado a isso, existem muitas ocorrências de violência contra a mulher.

Em Oiapoque a dificuldade é combater o tráfico de drogas

Em Oiapoque a dificuldade é combater o tráfico de drogas

Tem algum caso que mais lhe marcou como policial e ser humano?

Recentemente investigamos e prendemos um estuprador que agia em uma localidade próxima. Na verdade um bairro que se chama Vila Vitória, e fica em frente a Saint Georges, na Guiana Francesa. Ele tem aproximadamente 30 anos e chegou a molestar três crianças e tentou com mais quatro ou cinco. Isso mexeu muito comigo. Não só pelo fato de ser profissional e um ser humano, mas também pelo fato de ter um filho de quatro anos e isso choca muito a gente. Nós investigamos os crimes, formamos provas contra ele e agora está preso à disposição da justiça.

Como é a convivência com policiais de outras corporações?

Oiapoque é uma comunidade distante. Estamos a 570 quilômetros da capital, e as dificuldades de comunicação nos deixam ainda mais longe. Nós temos a sorte de contar com outras agências de segurança na região. Lá nós temos um lema: juntos somos mais fortes. A troca de experiência e a soma de pessoal nas operações são muito comuns em Oiapoque. Além de termos uma relação próxima, costumeiramente nós fazemos isso. Para que? Para realmente buscarmos um resultado mais efetivo. A união faz a força e o resultado é mais preciso. É claro que cada uma atuando dentro de sua atribuição.

O senhor acha que a tendência é aumentar os crimes com a abertura da ponte binacional? Quais seriam?

Com certeza. O crime é um evento social, ou seja, quem comete o crime é a pessoa. Quando se abrir a ponte, vai aumentar o fluxo de pessoas e com certeza os crimes vão aumentar também. Nós temos que estar preparados para isso. Acredito que os crimes contra o patrimônio devem aumentar mais.

A abertura da ponte binacional é uma preocupação a mais

A abertura da ponte binacional é uma preocupação a mais

E vocês estão preparados para isso?

Nós temos uma estrutura excelente. O que nos falta é mais pessoal. Hoje não temos o ideal, mas conseguimos dar uma resposta efetiva para a sociedade. Para a abertura da ponte nós estamos nos preparando. De que forma? Estamos aqui na Delegacia Geral demonstrado a necessidade de se lotar mais policiais no município. Tivemos a resposta de que está sendo preparado um concurso público para suprir essa necessidade.

Quantos agentes vocês têm hoje e de quantos vocês precisam?

A delegacia tem a parte administrativa e a parte de rua. Hoje nós temos apenas duas equipes que trabalham na rua, e são essas equipes que dão resultado maior para nós. Eu gostaria de ter mais quatro equipes. Em cada uma nós temos dois policiais trabalhando, então seriam mais oito policiais e mais um delegado, pelo menos.

Como o senhor encarou a existência de um plano para matar seu colega, Charles Corrêa?

A questão da ameaça é quase que inerente à nossa profissão. Quando nós trabalhamos, incomodamos muita gente. Apesar de não ser muito comum ela acontece. Quero dizer que nós recebemos essa ameaça com cautela, mas não nos causa temor ao ponto de interferir no nosso trabalho. Estamos tomando os cuidados necessários, não só em relação ao delegado Charles, mas todos os policiais da nossa delegacia. Essa investigação corre em sigilo. É uma questão ruim, mas nos motiva a trabalhar cada vez mais.

A Marinha seria de grande ajuda nas fiscalizações nos rios da região

A Marinha seria de grande ajuda nas fiscalizações nos rios da região

O que a PC do Brasil e a polícia francesa tem a aprender uma com a outra?

Muita coisa. Nós temos formação diferente, lidamos com pessoas diferentes, e na investigação criminal quanto mais formação nós tivermos melhor é. Inclusive, nós temos na Guiana Francesa um Núcleo de Cooperação Policial, que faz parte de um acordo internacional entre Brasil e França. Isso nos aproxima mais dos policiais de lá sem precisar passar pelos trâmites de Brasília. Assim, nós resolvemos muitos problemas comuns. Eles são muito formais no trato e esse centro ajuda a quebrar mais essa formalidade.

Como ocorre o combate ao tráfico de drogas naquela região?

Por ser uma zona estratégica e única fronteira com a União Européia, a região acaba atraindo os traficantes. A fronteira é uma rota muito usada por pescadores e garimpeiros que estão de passagem, e são eles os principais alvos dos traficantes. Porque quando você vai morar num lugar, criar seu filho é uma coisa, mas quando você está em um lugar só de passagem é outra. Essas pessoas são mais vulneráveis ao uso de drogas e ao vício. Nós temos um problema muito grande com o uso de drogas. Há estudos que apontam que a droga de Oiapoque vem do Suriname. Ela entra pelo rio Oiapoque e é distribuída. A nossa fronteira hoje é aberta. Não há uma fiscalização rígida, e é impossível a gente fazer a fiscalização pelo mar.

Mesmo com uma base do Exército na região?

O exército não atua nessa situação, só quando há operações. E quando acontecem essas grandes operações o elemento surpresa é quebrado, e as pessoas que planejam praticar esse tipo de delito acabam desistindo. No último fim de semana o ministro Aldo Rebelo esteve no município e nós fortalecemos o pedido para a instalação de uma base da Marinha na fronteira. Ou a instalação ou fiscalizações frequentes nos rios da região. Na verdade esse tipo de trabalho é de responsabilidade da Marinha. Com isso a gente conseguiria inibir a ação dos traficantes.

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