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Quando se fala em Pedro dos Santos Martins, de 37 anos, pouca gente sabe de quem se trata. Mas quando se fala em Pedro da Lua, o reconhecimento é instantâneo. Dono de uma personalidade polêmica durante o movimento estudantil, Pedro da Lua é admirado e odiado.

Hoje o ex-líder estudantil,  comunicador e atleta de artes marciais é deputado estadual e continua polêmico. A ascendência meteórica na política (está há menos 5 meses com mandato) já foi marcada com a presidência de uma das comissões mais visadas da Assembleia Legislativa, a Comissão de Direitos Humanos.

Da Lua tem 5 filhas de 5 mulheres diferentes, e afirma em tom de brincadeira que provará que sua base eleitoral não são suas mulheres.

Pedro Da Lua (3)

“O humor inteligente, voltado para as críticas políticas, me deixou conhecido, mas deu vários processos”. Fotos: Cássia Lima

O SelesNafes.Com conversou com o deputado para saber o que ele pensa da política, movimento estudantil e dos mais 80 processos que já recebeu por conta de comentários ácidos e de críticas políticas nos tempos de programa de rádio e televisão.

A missão foi dada ao repórter Anderson Calandrini.

Como foi todo o seu processo de formação política até a chegada ao parlamento estadual?

Cheguei a Macapá em 1992, direto para a academia do meu irmão para dar aula de karatê. Na época ainda era faixa verde. Foi nesse momento que passei um bom tempo treinando, um esforço que me levou a disputar torneios estaduais e nacionais. Já tive várias profissões, como faxineiro, office boy. Em 1994 comecei minha trajetória política ao iniciar o ensino médio e participar do movimento estudantil.

Depois de construir uma boa base disputei minha primeira eleição pela presidência da União dos Estudantes Secundaristas do Amapá (Uecsa) em 1997 e ganhei. Dois anos depois fui o primeiro reeleito, depois continuei dando apoio até sair do movimento estudantil em 2012.

Foi o momento em que criei grande parte do meu pensamento político, pois me envolvi na luta de várias categorias.

Como surgiu o comunicador Pedro Da Lua?

Depois de ter me candidatado a vereador outras oportunidades foram surgindo, e em 2005 criei o jornal estudantil ‘O Troco’, momento em que ganhei novas oportunidades que me levaram a migrar entre a TV e o rádio, sempre com a ideia de fazer um humor inteligente, voltado para as críticas políticas, o que me deixou conhecido, mas deu vários processos.

Porque continuar com os comentários ácidos se eles renderam todos esses processos?

Em todo o Brasil há esse humor mais ácido, mais debochado, feito pelo CQC, Pânico, na Rádio Jovem Pan, na Transamérica. Traz muitos inimigos, mas tentamos bolar algo nesse ritmo, guardadas nossas peculiaridades.

O público gostava, se divertia. As pessoas ficavam aguardando qual seria a pessoa que seria o ponto dos nossos debates. Assim ganhamos muita audiência, mas fomos muito atacados também, pois muitos não conseguem receber críticas, preferindo nos chamar de comprados,  mídia vendida e sem ética.

Assim fomos ganhando notoriedade, porque falávamos muito mal dos outros. Talvez seja por isso que muitas pessoas confundem hoje o Pedro da Lua humorista com o deputado e político que sou.

Por conta disso você acha que as pessoas te julgam mal?

As pessoas acham que estou forçando uma falsa imagem, porque hoje eu acordo cedo e cumpro todos os meus deveres como deputado. Eu sempre trabalhei muito, sempre dormi cedo, pois não gosto de farra.

Eu sempre dormi cedo porque eu começo a trabalhar muito cedo, porque quando assumo um projeto sempre quero ser o melhor. Nessa nova etapa não tem sido diferente. As pessoas acham que eu estou mudando, mas não, eu sempre fui assim, mas nunca tive a oportunidade de mostrar.

"As pessoas acham que eu estou mudando, mas não, eu sempre fui assim. Nunca tive a oportunidade de mostrar"

“As pessoas acham que eu estou mudando, mas não, eu sempre fui assim. Nunca tive a oportunidade de mostrar”

Esse estereótipo lhe atinge hoje?

Eu fui presidente da Uecsa em uma gestão do Executivo que nos chamava de bandidos, mas tenho orgulho em falar que nunca usei drogas, nunca me prostitui, nunca roubei, morei na ponte até os meus 27 anos, e lutei muito para chegar onde cheguei.

Hoje sou um deputado estadual em um governo que eu ajudei a construir, onde o projeto e as pretensões são muito parecidas. Eu fui base do governo Waldez, o que nos dá muito apoio em um momento em que não somos perseguidos. Eu não mudei, quem mudou foi o cenário político.

Mesmo sabendo que não seria fácil, estamos em um momento muito complicado, sabemos que o estado está achatado, mas pelo menos conseguimos trabalhar, sem perseguição, porque o PSB perseguia muito, eles tentavam atingir o particular, mas eu não fui fraco, eles vinham me atacar e eu rebatia na mesma moeda. O que me gerou mais 80 processos. Tenho processo até hoje da família Capiberibe.

Você falou que o cenário político era outro. Como está o movimento estudantil hoje, ele ficou fraco?

O que mudou foi o Facebook,  as mídias sociais, o conformismo moldado pela TV e a internet. Os protestos não tem um maior controle. Hoje os movimentos não tem lideranças, todos querem fazer algo, mas não conseguem dar um encaminhamento sólido.

É um movimento sem comando. A internet moldou um estudante que não tá nem aí. Na última vez que Uecsa tentou fazer um protesto contra o aumento tarifário o jovem não compareceu. Hoje eles querem gritar, mas não querem seguir. Tudo isso cria uma desorganização.

E sobre a Uecsa, ela parou? Não se vê mais movimentações da entidade…

Nós estamos iniciando uma nova negociação com a Uecsa. Vamos promover a restauração do prédio da entidade, próximo ao Estádio Municipal Glicério Marques. Como a entidade não tinha apoio não se manteve.

A entidade não conseguiu se manter, mas hoje vamos dar um reinício. Para isso necessitamos de um recomeço no trabalho de base para reestruturar o movimento secundarista. Temos que reativar os grêmios estudantis, construir os conselhos de bases para construir politicamente o jovem que hoje está acomodado.

"A internet moldou um estudante que não tá nem aí"

“A internet moldou um estudante que não tá nem aí”

O que você acha dos comentários de que você foi eleito por uma juventude sem pensamentos políticos?

Eu tenho minha história no movimento estudantil, mas eu parti para outros núcleos. Entrei nos movimentos de vigilantes, motoristas e cobradores; com os evangélicos. Tive muitos contatos e fiz uma base. Tudo foi um conjunto. Eu não tive votos só dos jovens, mas de toda uma base que foi construída.

Tive apoio dos meus contemporâneos do movimento estudantil. E posso dizer que todos os votos que obtive são de pessoas que me conhecem e me queriam na assembleia, pelo menos para dizer: ‘vamos ver que merda que vai dar’.

Como você analisa a situação do Estado hoje?

Hoje temos cerca de R$ 6 bilhões de dívidas de públicas, mas não estamos aqui para reclamar, estamos aqui para resolver o problema. Vamos dizer de quem é a culpa por esses problemas financeiros, mas também vamos arregaçar as mangas para resolver tudo.

Passei muito tempo dizendo que tudo estava errado, e hoje quero mostrar como é que se faz, realmente trabalhar para mudar o meu estado. Não podemos ficar apenas no discurso, precisamos colocar tudo isso em prática.  Pegamos uma terra devastada, mas hoje temos que plantar, adubar e reerguer o estado no caminho certo.

Como o senhor que ser lembrado ao fim dos quatro anos como deputado?

Trabalho. Não é clichê. Eu começo minha sessão às 8 horas e saio de lá ao final. Para fazer um levantamento rápido só eu e o deputado Paulo Lemos (Psol) somos os que participaram de todas as sessões. Claro que muitos tem motivos para se ausentar, mas eu quero estar lá, acompanhar os debates, dar minha opinião. Como presidente da Comissão de Direitos Humanos quero participar de tudo. Quero elaborar projetos, quero fazer tudo.

Passei 20 anos fora dizendo que poderia fazer diferente e esse é o caminho que quero seguir, mostrar que posso fazer tudo direito. Pois não seria justo com o meu eleitor, nem com a população, nem com a minha consciência.

Hoje eu quero ser conhecido como deputado estadual, e não quero ter vergonha de ser político. Pode até parecer romantismo, mas quero mudar o mundo e vou começar pelo Amapá, vou começar com minha terra.

Longe da vida política, quem é o Pedro dos Santos?

Gosto do karatê. Gosto de ver meus filhos tomarem banho na piscina no fim de semana, gosto hoje de curtir minha mulher e o barrigão dela, de onde nascerá meu sexto filho [aumentar minha base eleitoral], não gosto de viajar, tenho medo de avião e estrada, não quero deixar meus filhos, tenho muito medo de morrer. Não quero correr risco, não quero deixar minha família desamparada.

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