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CASSIA LIMA

Dados do Ministério da Saúde de 2015 alertam que o Amapá é um dos estados brasileiros com maior número de partos cesáreos. Oitenta por cento das grávidas são submetidas  às cesarianas pela rede privada, e 56% na rede pública. Humanizar o parto foi à pauta de profissionais da saúde em um encontro nesta segunda-feira, 4.

A Organização das Nações Unidas (ONU) recomenda que apenas 16% de mulheres tenham parto cesáreo, que são aquelas que correm de fato alto risco durante a gestação. 

A fisioterapeuta Natasha Vilhena é uma das cinco doulas que atuam em Macapá

A fisioterapeuta Natasha Vilhena é uma das cinco doulas que atuam em Macapá. Na foto de capa ela aparece orientando uma gestante

Os profissionais de saúde e gestores se reuniram para debater a importância do parto humanizado e o trabalho das “doulas” no Amapá, profissionais que acompanham as grávidas durante e após o parto. Elas são diferentes das parteiras, que realizam o perto.

O tema central da reunião foi à necessidade da mulher escolher e entender o processo do parto, além de a cesariana ser sua última opção, e não a primeira como ocorre atualmente.

“Durante a gestação a mulher cria medos e não consegue se conhecer fisiologicamente. A doula é uma assistente de parto que acompanha a gestante com foco no bem estar da mulher. Ela proporciona informação, acolhimento, apoio físico e emocional às mulheres durante toda a gravidez”, explicou o enfermeiro obstetra há 19 anos, Ronaldo Sarges, que trabalha na Maternidade Mãe Luzia.

Segundo ele, muitas mulheres são induzidas a “escolher” cesarianas pelo medo da dor na hora do parto. Entretanto, essa não é uma recomendação que ajuda na saúde da mulher e do bebê.

“A mulher tem uma descarga de hormônio muito grande durante o parto. E como o médico não trabalha com esse emocional durante a gestação, é mais fácil optar pela cesárea. A doula prepara a mulher para que no momento do parto a grávida produza a carga necessária de ocitocina, diminuía a endorfina e tenha um parto com o mínimo de sequelas”, destacou.

As doulas também podem ter formação superior ou não que ajudam a dar apoio físico e emocional à mulher em trabalho de parto. Durante a gestação, elas fornecem informações baseadas em evidências científicas para evitar cesarianas indesejadas e mostrar uma experiência positiva de parto.

O Amapá possui apenas cinco doulas, uma delas é a fisioterapeuta Natasha Vilhena que esclarece algumas dúvidas comuns entre as grávidas. Uma delas é a diferença entre parto humanizado e o parto natural.

Encontro de profissionais de saúde em Macapá. Fotos: Cássia Lima

Encontro de profissionais de saúde em Macapá. Fotos: Cássia Lima

“O parto humanizado respeita a vontade da mulher. Se ela quiser parir de cócoras ela vai, assim como, se quiser em pé ou de quatro apoio. Da forma como ela quiser. Vale destacar que a doula não dispensa o trabalho médico, eles são conjuntos. O médico realiza exames e procedimentos necessários. Já a doula acompanha e dá apoio emocional e fisiológico”, frisa a doula.

A empresária Priscila Resque, de 33 anos, tem duas filhas, uma nasceu em cesariana. Já a segunda foi durante parto humanizado. Ela conta que pagou um pacote de R$ 400 pelo acompanhamento que fez toda diferença na gestação dela.

“Eu trabalhei meu corpo e meu emocional para o meu parto. Valeu à pena porque ela me preparou não só para o nascimento da minha segunda filha, mas pro meu renascimento como mulher, de saber das minhas expectativas e redescoberta da minha força interior. Não senti medo no parto e minha filha está muito saudável hoje”, afirmou a mãe que levanta a bandeira do parto humanizado.

Empresária Priscila Resque fez um parto humanizado: fez a diferença

Empresária Priscila Resque fez um parto humanizado: fez a diferença

O trabalho das doulas só foi regulamentado em outubro de 2015 quando o governador Waldez Góes (PDT) sancionou a lei de profissionalização e reconhecimento de doulas, de autoria da deputada estadual Cristina Almeida (PSB).

“Já tivemos casos de hospitais não permitirem essas profissionais, e a lei veio combater isso. A mulher tem o direito de escolher o parto que quiser, assim como essas profissionais têm direito de trabalhar. A lei normaliza essa profissão e permite que essas acompanhantes entrem nesses estabelecimentos públicos e privados”, comentou a deputada.

“Enfrentamos dificuldades de trabalhar nos hospitais e muitos profissionais acham que estamos ali para disputar pacientes. Não é isso, precisamos deles e estamos ali para somar para que a mulher saia desse processo de gravidez o mais satisfeita possível”, complementou Natasha.

Curso de formação

Entre os dias 21 e 24 de abril, Macapá será sede do primeiro curso de formação de doulas. Com o tema “Para mudar o mundo, primeiro é preciso mudar a forma de nascer”, o evento busca agregar profissionais da saúde e difundir o parto humanizado. Mais informações no (96) 99148-0275.

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