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SELES NAFES

Na semana passada equipes do Corpo de Bombeiros do Amapá tiveram que atuar em dois naufrágios idênticos ocorridos na mesma noite no Rio Araguari, no município de Ferreira Gomes, a 135 quilômetros. Até este fim de semana os dois acidentes eram apenas uma grande coincidência, mas o depoimento de um sobrevivente revela que a verdade pode ser outra. De acordo com ele, a água liberada pelas comportas da hidrelétrica Ferreira Gomes Energia viraram a embarcação onde ele e o cunhado estavam.

O acidente aconteceu por volta das 21h do dia 30. Odiel Tavares dos Reis, de 36 anos, e o cunhado dele, Carlos Correa, de 40 anos, estavam pescando embaixo da Ponte Tancredo Neves, a cerca de 1 quilômetro de distância da barragem, fora da chamada “zona de risco”.

“Veio a água forte e depois um redemoinho que sugou a canoa para dentro do rio”, afirma Odiel Tavares.

Quando os dois pescadores caíram na água eles começaram a se arrastados com violência pela enxurrada. Odiel conta que no início conseguia ver Carlos Correa. Os dois começaram a se livrar das roupas e outros objetos pesados que estavam no corpo para poder ter mais condições de flutuar e tentar nadar.

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Lancha com funcionários da hidrelétrica fiscaliza área de risco. Acidente ocorreu a 1 quilômetro deste local. Foto: Arquivo

“Nossa sorte foi que as pedras estavam no fundo, e a gente não se bateu nelas. Mas a gente bebeu muita água, e infelizmente meu parceiro não aguentou”, lamenta.

Durante a enxurrada, a distância entre os dois pescadores foi aumentando, até que nenhum via mais o outro. Foi então que eles passaram a se comunicar por gritos. O desespero e a luta pela sobrevivência duraram cerca de 20 minutos, cerca de um quilômetro e meio rio abaixo.

“Quando chegou em frente a escola Maria Iraci Tavares, a água me jogou pra beira e jogou ele pra fora. Ele passou direto. Um rapaz me puxou pra terra”, recorda o pescador.  

Corpo da primeira vítima foi resgate no dia seguinte ao acidente. Foto cedida pelo CBM

Corpo da primeira vítima foi resgate no dia seguinte ao acidente. Foto cedida pelo CBM

“Se a água não me jogasse pra beira eu também ia morrer. Eu estava esgotado, meus braços estavam dormentes e respirava só pela boca. Acho que ele (Carlos) ficou cansado e não aguentou”, acrescenta.

Odiel Tavares afirma que a operação das comportas causou o acidente. 

“Eles estavam soltando água nessa hora. Mas a força foi muito grande e a canoa não aguentou. A gente sempre colocava a malhadeira ali. Nós registramos boletim de ocorrência”, avisou o pescador, que ainda não sabe se irá processar a Ferreira Gomes Energia.

Corpo de Carlos foi resgatado quase 3 dias depois e ainda precisou esperar 12 horas

Corpo de Carlos foi resgatado quase 3 dias depois e ainda precisou esperar 12 horas

O segundo drama 

Outro drama se seguiu após o naufrágio. O corpo de Carlos Correa ficou quase três dias desaparecido. Ele só foi encontrado na madrugada de sábado, 2. E ainda precisou aguardar 12 horas até a chegada da Polícia Técnica (Politec) que levou o corpo para necropsia em Macapá.

“O estado dele estava tão ruim que tivemos que sepultá-lo em Macapá. Nem pudemos enterrar na terra dele, que é Ferreira Gomes”, queixa-se Ana Tavares, a viúva do pescador. 

Ainda não há informações que confirmem que a água das comportas também virou a segunda embarcação que estava em outro ponto do rio, onde outro pescador também morreu afogado na mesma aterrorizante noite. 

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