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ANDRÉ SILVA

A alta constante no preço do combustível tem mexido vorazmente no bolso do brasileiro. A sensação de estarmos pagando uma conta que não é nossa é muito latente, e não pensar assim é quase impossível. Os escândalos de corrupção envolvendo a Petrobras consolida essa impressão.

Por isso, o site SELESNAFES.COM foi procurar um especialista em economia para que possamos entender o que está acontecendo. José Iguarassú explica a sucessão de eventos que culminaram com esse momento que vivenciamos. Segundo ele, como o barril de petróleo que está cotado a um preço baixo, só que mesmo assim continua havendo alta do combustível brasileiro. Se é assim, por que, então, a previsão é de mais alta nos preços? Acompanhe na entrevista.

Economista José Iguarassu: o Amapá pode crescer muito se tiver petróleo de qualidade na costa amapaense

Economista José Iguarassú: o Estado pode crescer muito se tiver petróleo de qualidade na costa amapaense

O Amapá está para entrar para a lista de estados produtores de petróleo. Por que ainda não vemos na prática a influência disso no mercado de trabalho?

O seguimento de óleo e gás é um seguimento altamente especializado, e é uma atividade econômica de longo prazo. Os investimentos só começam a dar retorno depois de 15 anos ou mais. Então, nesse momento de prospecção, que é o que o Estado vive, a mão de obra é composta por especialistas que desenvolvem suas atividades em outros centros. Portanto, nesse momento não se tem muito uso de mão de obra, mais de tecnologia.

A exploração do petróleo vai ser importante para o Amapá, economicamente falando?

Sim. Acredito que a exploração de petróleo será uma forma de dinamizar o desenvolvimento do nosso Estado. Só nesse momento da prospecção já é evidente o nome do Amapá no cenário nacional, e se a qualidade do petróleo que  for encontrado na costa do Amapá for de alta qualidade, então os investimentos serão mais intensificados. E pela posição geográfica que o Amapá tem, pode se tornar até um centro distribuidor e de refino de petróleo.

Quais os tipos de petróleo que existem?

Existe o petróleo pesado e o leve. O que produz o combustível é o leve, e ainda não se sabe qual o tipo que tem na costa do Amapá.

O Amapá dispõe de mão de obra qualificada para esse momento?

Não temos. Por se tratar de mão de obra especializada. O que não quer dizer que não podemos preparar.

Por enquanto, acontece a prospecção que usa mão de obra especializada

Por enquanto, acontece a prospecção que usa mão de obra especializada

Por que o barril do petróleo esta com uma cotação tão baixa?

Porque o preço acaba obedecendo àquela velha lei da economia da oferta e demanda. Nós tivemos no mundo um problema  de desaquecimento da demanda por petróleo, motivado pelo fato dos Estados Unidos  terem, nesses últimos anos, uma ampliação das suas reservas. Portanto, diminuiu a sua demanda mundial. A China tem desacelerado sua economia, e ela é uma grande demandante de combustíveis fósseis, não só de petróleo, mas de gás também. A última projeção é de um recuo no Produto Interno Bruto (PIB) do país oriental de menos de 10 %, e ela vem de uma média histórica de 10%, e isso impactou.

Já que está havendo uma ampliação da oferta de petróleo em função da baixa de demanda, por que os produtores de petróleo não tem um ajustamento na sua oferta?

Porque os grandes produtores, como Arábia Saudita e países do Oriente Médio, tem aquilo que se chama de “maldição do petróleo”, ou seja, a economia deles é totalmente dependente da exportação desse produto. Então, eles fazem de tudo para que nenhuma alternativa de energia, que não seja de petróleo prospere.

Qual seria essa alternativa?

Os Estados Unidos tiveram uma ampliação em suas reservas motivada pela intensificação do uso do “xisto”, que é um mineral. Então, como eles perceberam que os EUA estavam ampliando a exploração desse mineral, começaram a aumentar a oferta para baratear o petróleo. Mesmo com a desaceleração da China, eles mantêm a produção e o barril pode chegar até a 20 dólares antes de voltar a crescer novamente. Isso porque a Arábia Saudita  e outros países produtores, como Rússia e Venezuela, que são totalmente dependentes da exportação do petróleo, não têm interesse que essa indústria do xisto prospere. Inclusive, está havendo uma desativação das indústrias nos EUA desse seguimento. Já houve mais de 40% de redução nesta estrutura, porque a exploração do xisto só é viável com o barril do petróleo cotado a 46 dólares, como está em 30 dólares se torna inviável.

O preço do barril do petróleo caiu por conta da oferta maior que a demanda

O preço do barril do petróleo caiu por conta da oferta maior que a demanda

Por que esses movimentos de baixa do barril não reduz o preço do combustível no Brasil?

A Petrobras passou de 2014 a 2015 represando os preços. Nessa época, quando o barril esteve em um momento de ascensão intensa, a Petrobras não rebateu o aumento para a economia interna, e isso é uma política da companhia. Segurou também pela motivação política. O governo federal estava fazendo um esforço para conter a inflação, principalmente nas vésperas da eleição. Então, com isso, a companhia segurou os preços e foi tendo perda de liquidez.

A partir de 2015, quando começou o movimento de baixa no preço do petróleo, a Petrobras também não fez essa adequação de preço internamente. Primeiro porque ela teve que gerenciar um custo negativo da sua imagem devido aos constantes escândalos de corrupção que vieram à tona através da operação Lava-jato.

Em segundo lugar, ela não tem caixa e precisa fazer caixa, e para isso está tendo que soltar os preços que ficaram represados entre 2014 e 2015. Agora ela está comprando o barril a um preço menor, podendo internalizar e vender a um preço maior. Além de fortalecer o caixa, a Petrobras está tendo que gerenciar uma dívida estimada em R$ 500 bilhões. Portanto, a companhia tem que garantir que esta dívida será paga, e para isso, não pode baixar o preço do combustível.

Mas o que faz o combustível ser tão caro?

Aquele fator que o brasileiro conhece bem, carga tributária. Os analistas estimam que o imposto embutido no combustível chegue a 53%, isso na gasolina. Para os outros combustíveis eu não posso  confirmar. O combustível sempre foi um dos produtos mais tributados no nosso país.

O senhor consegue fazer uma previsão de quanto tempo o brasileiro ainda vai continuar comprando combustível a esse preço?

Acredito que esse ano não haverá redução no preço. E ainda corre o risco até de ter novo aumento.

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