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MANOEL DO VALE

Virar cambalhota, por os pés na canga, acima da cabeça, cangapé. Coisa de moleque de rua que se aprendia na escola, quando esta parecia um grande circo cheio de interessantes novidades, principalmente para o corpo, que, quando ainda é criança, adora perder a gravidade, de se manter em equilíbrio bambeando na corda, sem cair; e fazer palhaçada, pois a vida é melhor quando explode em gargalhada.

Cambalhota é cangapé. Cangapé é circo, teatro, um espaço pequeno, ali na quarta rua do Araxá, bairro carente de Macapá, mas repleto de tudo que uma criança precisa para fazer da vida miúda um caloroso espetáculo.

Que diga o Emerson Rodrigues, ex-aluno dessa escola, que funcionou por um tempo na sede da Polícia Interativa daquele bairro, mas que depois mudou para a casa dos seus idealizadores, onde recebe cerca de cem crianças através dos cursos de circo, teatro, judô e letramento – fazer a criança gostar de ler -, projetos que ali se desenvolvem, com apoio do Unicef, através do Criança Esperança.

Emerson. Fotos: Manoel do Vale

Emerson conheceu a Cia Cangapé quando criança e hoje virou professor do projeto. Fotos: Manoel do Vale

Emerson foi um daqueles meninos que andavam na contramão das estatísticas dos que vivem nos chamados ‘bairros pobres’, e que preferem o risco de viver da arte de rua, tão marginalizada, para não sucumbir a marginalidade. Começou aos dezesseis, participando do grupo de teatro da igreja, com o grupo ‘Eta Nóis’.  Dois anos depois ele conhece o Cangapé.

“Dois anos depois o Washington começou com o trabalho do Cangapé aqui dentro do bairro, foi quando eu comecei a trabalhar com eles, em 2008/2009. E a gente fez uma oficina de circo. E, em 2011, a gente foi contemplado com o edital Carequinha de Estímulo ao Circo [Funarte] com as crianças na interativa do bairro’, relata Emerson, que, graças as oficinas de circo, recebeu bolsa para estudar na Escola Nacional de Circo, no Rio de Janeiro, onde frequentou de 2012 ao final de 2013.

Espaço de leitura

Espaço de leitura conta com dezenas de livros

Quando voltou, Emerson, de aluno, virou professor nas oficinas de teatro e circo a convite da Cia Cangapé, onde trabalha até hoje.

A comunidade gosta e apoia os projetos do Cia, que no mês de junho costuma fechar a rua para fazer um arraial, no qual os populares contribuem levando os comes e bebes.

Sonho que não se sonha só

O nome Cangapé foi escolhido para justificar a vida cheia de desafios que Washington e sua companheira Alice vivem cotidianamente com o resto da equipe para manter o projeto vivo e criativo, que exige habilidade e talento.

Credito

Projeto atende crianças carentes do bairro Araxá

Dinheiro, que é bom, o grupo tem pouco, quando não tem nada. Mas a maior riqueza, diz Washington, vem dos amigos, as viagens e todo o conhecimento que a vida de artista deu a ele e sua família, no que se inclui os parceiros de projetos.

“Talvez se eu não tivesse ingressado no caminho da arte, não tivesse essa carga de conhecimento, de pessoas, de lugares, de coisas”, pondera Washington, afirmando que quando se pensou em criar o Cangapé, foi como forma de devolver tudo o que lhes foi dado, a ele, sua família e as pessoas do grupo que também se beneficiaram dessa imensurável riqueza que a arte proporciona.

A expectativa do grupo é que, daqui há alguns anos, a molecada que hoje dá cambalhota nas aulas de judô e de circo, que se envereda pelo bosque colorido da leitura e as descobertas e desafios do teatro, possam viver as experiências que eles hoje vivem.

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