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MANOEL DO VALE

O piauiense Fernando Chaves se define como um pesquisador cultural, ofício que o fez correr por muitos estados conhecendo e absorvendo a cultura popular brasileira, até chegar ao Amapá em meados da década de 1990, período em que os movimentos culturais começavam se fortalecer por aqui enquanto empreendimento profissional.

E foi nessa conjuntura cultural da cidade que Fernando fincou os pés em terras macapaenses. Não demorou, ele já tinha um disco gravado e um sonho a construir.

“Como eu já estava aqui, e vi que o movimento da cultura era bacana, eu resolvi ficar. E o que é que eu fiz pra poder viver bem com meus filhos? Fui me valer da minha criança lá de Teresina. E do palhaço. Eu entendia que fui uma criança feliz”, relembra Fernando, para quem o circo está no cotidiano das pessoas de maneira bem significativa.

“As pessoas é que não o levam muito a serio, ou porque não querem ou porque acham que o circo é apenas brincadeira”, ele alerta.

Lona do circo

Lonas do circo Roda Ciranda

O dinheiro para o investimento veio com a venda dos discos, o suficiente para comprar sua primeira lona para dar teto ao Circo Roda Ciranda. As primeiras crianças foram os filhos dos amigos e os amigos de escola dos filhos. E a notícia da chegada do circo se espalhou entre às crianças da Lagoa dos Índios, Marabaixo I, II, III e IV, e o quilombo do Coração. Sem falar da própria comunidade do Goiabal, onde o projeto foi implantado.

De lá pra cá se passaram mais de uma década e meia, tempo suficiente para Fernando e sua família se firmassem como referência (certificada pelo Unicef) de Escola Circo no Amapá. Durante esse tempo o Roda Ciranda navegou pelos rios do Amapá, abordo do Navegar Amazônia, armou lona e ficou quatro anos no Colégio Bartolomea.

No ano passado a escola circo chegou a receber 4 mil crianças das escolas municipais através do programa Mais Educação, do Ministério da Educação, oferecendo educação ambiental, educação musical e prática circense.

Circo

Roda Ciranda funciona na comunidade do Goiabal

O Roda Ciranda passou também um bom tempo ministrando suas oficinas para as crianças do conjunto Macapaba, na Zona Norte de Macapá. Fernando, que também é pedagogo, mesma profissão de sua mulher, Gisele Lais, acredita que a arte circense está no cotidiano das pessoas.

“Quem não faz malabarismo pra viver hoje em dia? Quem que não vive na corda bamba?”, pergunta e dá o exemplo fazendo a relação com o diálogo do vendedor de loja. “Aqui moça bonita não paga, mas também não leva”. Esse dialogo é teatro, diz Fernando. É circo. Se tu escorrega na casca de banana, tem que se equilibrar pra não cair.

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As aulas de circo ajudaram o Lucas a ficar mais desenvolto e diminuir a timidez

“O circo nunca te coloca pra baixo, ele sempre te eleva. A própria lei de Newton diz que todo mundo cai. Sem falar que no circo você está sempre olhando para cima, vendo o mundo colorido. A magia da coisa, o belo, que é o circo. E nessa história de fazer o circo dialogar com o cotidiano é que a gente vem criando nossos filhos”, conclui.

O Lucas, de 8 anos, filho da Iza e do Ed, que frequenta a escola circo há pouco mais de um ano, é a prova desse diálogo do cotidiano. Segundo os pais do menino, Lucas era um garoto tímido, que apresentava dificuldade em se inserir em atividades coletivas e muito recluso.

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Lucas ajuda a colega de circo a andar na barra

“Hoje o Lucas é muito desenvolto. Ele faz tudo com capricho. Aumentou a concentração dele. Ele era bem disperso, hoje ele consegue se concentrar. E a gente viu isso na escola. Ele melhorou muito depois que começou a fazer aula de circo”, diz Iza, enquanto o filho cruza o picadeiro se equilibrando em cima de uma bola.

Outro que teve seu cotidiano mudado pelo circo é o Manoel, de 8 anos, que tinha limitações no movimento com os joelhos que o impediam de até mesmo se agachar. Hoje ele faz estrelinhas, senta sobre a perna e está com a autoestima nas alturas, bem diferente do menino de um ano atrás, que não conseguia terminar as coisas a que se propunha fazer, segundo informou sua mãe, Simone.

Lucas e Manoel, fazem parte da turma de crianças que frequentam o circo Roda Ciranda para as oficinas de prática circense nas tardes de sábado. Quem ministra as oficinas é Kelita Morena, 22 anos, filha de Fernando e Gisele, que aprendeu com o pai e agora ensina crianças e adultos.

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Kelita ensina a arte circense para as crianças da comunidade

“A dinâmica do Roda Ciranda sempre foi tudo entre crianças, então experimentar as atividades sempre fez parte. Era sempre eu brincando com os amiguinhos, ensinando pra eles. As aulas mesmo eu comecei a dar quando o circo foi para dentro do Bartolomea” diz Kelita, que, enquanto as atividades com as escolas estão paradas, dá aulas particulares para crianças a partir de seis anos e adultos.

As aulas acontecem nos sábados, pela manhã para os adultos e à tarde para as crianças. E custam R$ 50 mensais. O Circo Roda Ciranda fica na Avenida das Amazonas, 247, no Goiabal.

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