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JÚLIO MIRAGAIA

A haitiana Gregórie Pierre, 41 anos, atravessou a fronteira da Guiana Francesa com o Amapá para encontrar com o marido, que mora e trabalha como pedreiro em Porto Velho, Rondônia. Ela tentava comprar passagem para seguir viagem até a capital rondoniense, mas foi impedida porque não tem nenhum documento brasileiro que confirme a maternidade das duas crianças que trouxe consigo para a sede da Polícia Civil, no fim da tarde da sexta-feira, 19.  Um dos meninos tem três anos e o mais novo um mês.

Ela está em Macapá desde o dia 15, e estava hospedada numa pousada no Bairro São Lázaro, próximo do terminal rodoviário de Macapá. O dinheiro para pagar as diárias do quarto acabou e a equipe da Polícia Civil e da Defensoria Pública conseguiram abrigo e fraldas para as crianças.  

Cabeleireira em Ganthier

Falando português fluente, porém carregado pelo sotaque crioulo e francês (idiomas oficiais de seu país de origem), Gregórie relatou que após o terremoto que devastou grande parte do Haiti em 2010, perdeu tudo o que tinha na vida.

Mudou-se para o Brasil em 2012, mais precisamente para a cidade de Lajes, em Santa Catarina. Lá, ela morou durante três anos, trabalhando como camareira de um hotel. Depois disso, foi morar durante 8 meses em Caiena, capital da Guiana Francesa, com um irmão também refugiado.

No Haiti, Gregórie trabalhava como cabeleireira, em Ganthier, sua terra natal. Uma comuna situada no departamento do Oeste, cidade que antes do terremoto tinha cerca de 70 mil habitantes.

Recuperando-se ainda da cirurgia cesariana a qual se submeteu na Guiana para dar a luz o filho mais novo, ela tentou a travessia para o Brasil, mesmo estando sem passaporte e sem a documentação das duas crianças.

Emocionada e procurando uma solução para o drama que vive, ela diz que se não conseguir o dinheiro e os documentos para sair do Amapá, deseja ficar no Estado.

“Se não puder ir até Porto Velho ver meu marido, desejo morar e trabalhar em Macapá”, disse Gregórie chorando para nossa reportagem e para a equipe da Delegacia de Crimes Contra a Criança e o Adolescente (Derca) da Polícia Civil e da Defensoria Pública do Estado.

Uma certidão para o filho mais novo

O delegado Daniel Mascarenhas, que recebeu a haitiana com os filhos, explica que a imigrante não tem a certidão da criança mais nova, que nasceu na Guiana Francesa.

Delegado Daniel Mascarenhas: certidão não vale no Brasil. Fotos: Júlio Miragaia

Delegado Daniel Mascarenhas: certidão não vale no Brasil. Fotos: Júlio Miragaia

“Deram uma certidão na Guiana, mas para ela ser válida no Brasil, precisa ser transcrita para as nossas leis brasileiras em cartório público”, esclareceu Mascarenhas.

“Ela teve o filho recém-nascido na Guiana e ao transcrever a documentação que tem, num cartório, ela conseguirá autorização judicial para viajar com essa criança”, prosseguiu o delegado.

Daniel Mascarenhas disse ainda que a real situação dela ainda não está esclarecida.

“É preciso saber como ela está no Brasil. Se ela tem visto permanente ou temporário, estamos tentando ajudar”, concluiu.

Fatores de vulnerabilidade: os documentos e a questão social

O defensor público Gilson Soares Borges, da Defensoria da infância e Juventude, explicou que Gregórie precisa procurar a política de imigração da Polícia Federal.

Defensor público Gilson Borges: não é a primeira vez que aparece um refugiado haitiano com crianças

Defensor público Gilson Borges: não é a primeira vez que aparece um refugiado haitiano com crianças

“Na superintendência da Polícia Federal, há um posto avançado que recebe os refugiados do Haiti, não é a primeira vez que aparece um haitiano com uma criança”, destacou o defensor.  

Borges também diz que o principal impedimento para a saída da haitiana hoje do Amapá é a falta de documentação das crianças.

“Não é propriamente ela, ela poderia ir embora nesse caso, o problema são as duas crianças que não tem registro. Por isso está dando esse empecilho todo”, esclareceu.

Gilson Borges ressalta ainda que a questão social é um problema determinante também para dificultar o deslocamento de imigrantes em território nacional.

Brinquedos emprestados por policiais civis às crianças

Brinquedos emprestados por policiais civis às crianças

“Essas pessoas que vem pra cá já vem sem poder aquisitivo, ela não tem como se movimentar dentro do país. Aí precisa de um suporte social que seriam as condições para ela ficar”, comentou.

O defensor concluiu informando que as equipes da Derca e da Defensoria realizarão o acolhimento de Gregórie e, na segunda-feira, 22, ela irá acompanhada pelo defensor até a Polícia Federal para resolver o problema da sua documentação e das duas crianças.

Esperança

A haitiana de Ganthier aguardará ainda mais alguns dias com os filhos, até que possa reencontrar o marido. Assim, Gregórie espera conseguir um desfecho para uma história que ainda é pouco esclarecida, mas que parece ser a busca por um futuro melhor para uma família devastada por uma tragédia.

Para ajudar Gregórie a comprar fraldas e mantimentos para as duas crianças, basta entrar em contato com Conceição Freitas, agente da Derca, pelo telefone (96) 99190-7114.

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