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CÁSSIA LIMA

Depois de 22 anos da chacina que marcou a disputa de terras no Brasil entre moradores e grileiros, três irmãos sobreviventes da família Magave revivem a briga por terras no Amapá. Os irmãos disputam 400 metros de terra com um empresário do Paraná.

A chacina Magave, como ficou internacionalmente conhecida, ocorreu no dia 4 de fevereiro de 1994, na fazenda Campo Alegre, no município de Amapá quando foram mortos Áurea de Castro, de 62 anos, Nadir Magave, de 92 anos, Iracy Magave, de 68 anos, Osmar Magave, de 62 anos e Alcides Magave, de 65anos.

No mapa é possível ver a área, representada por cinco quadrados a esquerda, que pertence a família Magave. Fotos: Cássia Lima

No mapa é possível ver a área, representada por cinco quadrados a esquerda, que pertence a família Magave. Fotos: Cássia Lima

Os cinco membros da família foram brutalmente assassinados e tiveram os corpos esquartejados, com exceção de Iracy. As vítimas eram proprietárias de 571 hectares de terras, localizados às margens da BR-156. Eles ocupavam o terreno desde 1950. Apesar de receberem posse do Incra em 1975, a investigação do crime apontou que os assassinatos foram motivados pela disputa de limite das terras da família Magave com uma empresa. O crime foi julgado como encomendado.

Na época da chacina, os irmãos, Raimunda, Raimundo (foto destaque) e Francisco Magave estavam morando em Macapá, por isso não foram assassinados. Eles souberam das execuções dias depois quando a falta de ligação da família de Amapá preocupou os irmãos da capital.

Irmãos Magave, acompanhados pelo padre Cisto magro (centro), da CPT

Irmãos Magave, acompanhados pelo padre Cisto Magro (centro), da CPT.

“Minha família não ligou para passar notícias. Pedimos pra um policial amigo nosso ir lá, ele foi de caçamba e encontrou a ossada da minha família. Quando cheguei na entrada do município ele me viu e me deu a notícia”, relembrou emocionado Raimundo Magave, hoje com 78 anos.

Nova invasão de propriedade em 2010

Raimundo conta que após a morte da família, ele e os dois irmãos foram morar na fazenda, onde vivem desde então da venda de gado. Mas em 2010 uma cerca de um posseiro do terreno ao lado iniciou um processo judicial que culminou com uma sentença, proferida no mês passado, que lhe dá a propriedade da área. O caso está sendo acompanhado pela Comissão Pastoral da Terra no Amapá (CPT-AP).

“A área está no nome de um empresário paranaense, mas ninguém nunca soube disso. Existem várias peculiaridades nessa sentença. Primeiro, o tabelião que registrou a terra no nome do empresário responde a vários processos judiciais. Segundo, a área nunca foi titulada pelo Incra. E outra, identificamos que o gado dessa área é do atual prefeito da cidade e não do empresário”, alegou o padre Cisto Magro, da CPT.

Francisco Magave.

Francisco Magave: decisão injusta. “Estamos de pé e mão amarrados”

A sentença judicial é baseada em um termo de manutenção de posse da família Magave. O pedido foi feito em 2012 tendo como base um laudo do Instituto de Mapeamento e Ordenamento Territorial do Amapá (Imap), onde os técnicos perceberam que a região da cerca do empresário entrou 400 metros para o terreno dos Magave.

Assista abaixo o vídeo em que o padre Cisto explica a localização do terreno e a diferença do tamanho das áreas do posseiro e da família Magave.

“Essa ação durou 4 anos e mesmo com o laudo do Imap, o juiz deu causa ganha para o empresário que sequer pisou no Amapá nos últimos 20 anos. Ele nunca morou aqui e sequer criou cultura efetiva no local”, explicou o padre.

Raimundo e Francisco tentam com a ajuda da CPT reverter a situação judicial e ganhar na justiça o terreno que a família vive desde a década de 1950.

Padre Cisto estranha a decisão judicial. incra nunca fez

Padre Cisto estranha a decisão judicial. Incra nunca fez titulação da área e prefeito de Amapá cria gados no terreno

“Nós queremos que a justiça faça justiça mesmo. Nós vivemos todo esse tempo na terra e agora o juiz intercedeu contra nós. Estamos de pé e mão amarrados. Essa é a mesma cerca que ocasionou a chacina em 1994. Precisamos de um bom advogado e não temos”, diz Francisco Magave.

A área da família Magave tem 700 metros de frente e 3 mil de fundo. A frente está cercada, mas uma parte do lado e dos fundos não. O que marca o terreno da família são pernamancas.

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