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CÁSSIA LIMA

O advogado e historiador Dorival Santos lança neste sábado, 8, um livro sobre os bastidores da Ditadura Militar no Amapá. A obra intitulada “Entre a Tortura e a Matinta Pereira: Uma abordagem Cultural da Ditadura no Amapá”, resgata os fatos que envolveram o fenômeno “engasga-engasga”.

A obra literária descreve como esse período contribuiu para a construção de mitos que se fundiram com a realidade da época e trouxeram pânico para a sociedade amapaense.

O objetivo é simples: instigar uma prática corrente (e pouco comentada) da ditadura no Brasil, especialmente a prática ditatorial do “engasga engasga”. O livro será lançado no Espaço Vitruviano, localizado na Avenida Machado de Assis, às 17h.

O escritor Dorival Santos conversou com o portal SELESNAFES.COM.

Onde o senhor colheu informações para o livro?

As minhas fontes foram documentais, correspondência privada, fonte pública. Eu tive muita dificuldade porque aqui no Amapá nós não temos um arquivo público organizado e essa informação está dispersa em espaços privados e públicos, e isso causa dificuldade pra gente que é historiador. Mas no geral, eu saí catando as informações com fontes orais que testemunharam. Além disso, achei várias informações na Unicamp pelo projeto “Brasil Nunca mais”.

Capa do livro Entre a Tortura e a Matinta Pereira

Capa do livro Entre a Tortura e a Matinta Pereira

Quando tempo o senhor demorou pra terminar essa obra?

Devido a essas dificuldades de informações eu demorei quatro anos só pra juntar as informações e mais uns três organizando tudo.

O que o senhor lembra da ditadura?

Eu tinha uns 7 anos no início da ditadura e tinha uma memória confusa daquilo tudo. O que me marca muito é a proibição de eu sair na rua e um medo de um engasgador. Me lembro do terror daquele período em Macapá.

O que foi o “engasga-engasga”?

Essa história é o espirito central do meu trabalho. Isso começou no primeiro semestre de 1973, quando se espalhou pela cidade que provavelmente um homem, vestido de negro, alto e uma luva que tinha umas lixas, que sumia rapidamente. Ele estava atacando as pessoas, especialmente as mulheres. Isso reverberou a histeria e um medo terrível se assolou na cidade. Isso causou um terror.

Rua Cândido Mendes: pessoas se recolhiam mais cedo com medo do engasga-engasga. Acervo: Derossy e Lücia

Rua Cândido Mendes: pessoas se recolhiam mais cedo com medo do engasga-engasga. Acervo: Derossy e Lücia

Até quando isso durou?

Até o fim daquele ano quando prenderam umas pessoas que foram acusadas e a situação foi “controlada”.

Esse “engasgador” de fato existiu?

Eu não encontrei nenhum documento ou pessoa que tenha sido agredida por esse engasgador. Todo mundo dizia, ouviu, mas não existe nenhum documento público, como ocorrência policial ou inquérito, que tivesse dado preocupação ao Estado para apurar essas informações.

Sete anos de trabalho compilados

Sete anos de trabalho compilados. Fotos: Cássia Lima

O senhor acredita que isso foi uma lenda criada?

Essa era uma lenda rural, que era a nossa sociedade da época. Esse imaginário era muito presente, real e dominante. Esse engargador foi naturalmente transformado em um mito como a “Matinta Pereira”. Na verdade, umas das minhas hipóteses é que isso foi uma coisa pensada no gabinete do secretário de segurança na época para causar terror.

Em sua opinião quem seria o responsável por esse terror?

O próprio aparato de segurança do ex-território. Isso é uma das minhas hipóteses do livro. Vale lembrar que naquele período os territórios de Roraima e Rondônia já tinham iniciado o uso da Polícia Militar e nós não tínhamos, porque diziam que nossa sociedade era pacata e ordeira e que a Guarda Territorial era suficiente para nosso controle. Só que a maioria dos gestores não era daqui. O coronel Edir Machado, que era nosso secretário de segurança na época, e elaborou essa operação, era do Paraná.

Ele veio com a ideia de profissionalização dessa guarda e que eles estariam obsoletos. Mas só que não havia crimes pra esse alarde e nem uma resistência política. Eu acredito que criaram isso pra mostrar que havia uma desordem em determinado grupos de subversivos para justificar a implantação da PM no Amapá. Não por coincidência, isso ocorreu um ano e meio depois.

1959: Guarda Territorial seria substituída pela PM poucos anos depois. Acervo: Amiraldo Bezerra

1959: Guarda Territorial seria substituída pela PM poucos anos depois. Acervo: Amiraldo Bezerra

Como os militares usavam as lendas da Amazônia para justificar a ação dos chamados “comunistas”?

Isso é o que eu chamo de inteligência perversa. O engasga engasga é um exemplo disso. O fato é que o uso dessa mentalidade trouxe um medo ditatorial e jogou uma pessoa contra a outra. O engasgador era um ente impalpável, impercebível era de uma inteligência perversa muito eficaz. De certo modo isso funcionou. Não preciso de armas, só uma figura mitológica que teve uma eficácia que isso repercute até hoje. A ditatura ocorreu no sentido bruto, mas isso foi tão cruel quanto.

Quais os personagens amapaenses que foram perseguidos pela ditadura?

Têm inúmeros, mas posso destacar pelo meu livro, o João Capiberibe (irmão do senador João Alberto Capiberibe), Chaguinha, Odilardo Lima, Fernando Canto, Gurgel, entre outros.

Prédio-da-Central-de-Polícia-na-Praça-Veiga-Cabral-pronta

Prédio da Central de Polícia na Praça Veiga Cabral. Foto: Blog Porta Retrato

O que o governo dizia dessas pessoas?

Elas foram estigmatizadas como comunistas. E isso foi muito contraditório porque nenhuma delas reivindicava isso. Uns poucos mesmo é que eram comunistas, mas a maioria era gente com perfil democrático, mas que não concordava com as ordens da Ditadura. Essas pessoas sofreram segregadas e rejeitadas pela sociedade.

Muitas sofreram muito e tiveram que sair do estado porque não conseguiram se integrar àa sociedade devido aos boatos. A insígnia de comunista foi um sinal de segregação porque todos diziam que o comunista era comedor de criancinhas e cometia atrocidades. Isso é um absurdo de uma intelectualidade muito rasteira.

 O que o senhor espera com a publicação dessa obra?

Em primeiro lugar, eu tenho fundamentalmente, um fim acadêmico. Mas também, hoje a gente vê fascistas por aí, então também tenho o objetivo da memória. Essas novas gerações não chegaram a ter vivência de ditadura, então a história é fundamental para que esses jovens percebam quão brutal e indigna e cruel foi a Ditadura.

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