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JÚLIO MIRAGAIA

No fim da tarde de domingo (30), nas ruas empoeiradas do Jardim Felicidade, era possível numa caminhada até a padaria ouvir gente cantarolando e conversando alguma coisa de Belchior. Passava algo na TV sobre a sua morte. O sol ainda estava quente como a “felicidade”, uma arma segundo a canção “Comentários a Respeito de John”. Vi um senhor de alguma idade tomando uma cerveja e apreciando, solitário, na garagem de casa:

“Tenho 25 anos de sonho e de sangue

E de América do Sul

Por força desse destino

O tango argentino me vai bem melhor que o blues…”

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes faleceu na madrugada do último domingo de abril (30), aos 70 anos de idade, na cidade de Santa Cruz, Rio Grande do Sul. A causa da morte, segundo laudo médico, foi o rompimento de uma aorta. De acordo com matéria publicada na Folha de São Paulo (30/04), o cantor e compositor morreu sereno, ouvindo música clássica. Seu velório será primeiro em sua terra natal, Sobral, para num segundo momento ser velado em Fortaleza, ambas cidades do Estado do Ceará.

Artista cearense faleceu na cidade de Santa Curz (RS) na madrugada de domingo (30). Foto: Veja/reprodução

Sem dúvida, Belchior deixa a vida para viver ainda mais. Marcado no coração de uma multidão de fãs de norte a sul do país, o artista havia abandonado a carreira e se tornado um nômade entre o sul do Brasil e o Uruguai nos últimos anos.

Macapá teve o prazer de presenciar alguns de seus shows, o qual este colunista não tem certeza do número de vezes, mas sabe de um no Centro de Convenções João Batista de Azevedo Picanço, em 1984, e outro nos anos 1990, no Teatro das Bacabeiras.

Autor de clássicos como “Coração Selvagem”, “Apenas um Rapaz Latino-Americano”, “Velha Roupa Colorida”, “Como Nossos Pais”, “A Palo Seco”, “Divina Comédia Humana”, dentre tantas outras canções, o trovador nordestino tinha a estranha capacidade de tornar sofrimentos e crises existências em coros, comuns a todos que o escutassem. Tudo sob a luz da arte, da filosofia e da literatura, com letras elegantes, simples e honestas.

As homenagens ao artista transbordaram na ágora de nosso tempo, as redes sociais. “O Bob Dylan Brasileiro”, diziam alguns. “O mais literário dos compositores de nosso país”, disse Xico Sá. Um “Rimbaud Tupiniquim”, bradaram tantos outros.

Alucinação, álbum lançando em 1976

O homem que trouxe para a música versos e diálogos com Drummond, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Dante Alighieri, Jorge de Lima, Albert Camus, além de sua própria poética, deixou em sua obra a mensagem indizível, mas dita em suas metáforas melancólicas e entorpecentes.

Fica no restante deste fim-de-semana-feriado o desejo de passar o dia entre um porre de vinho e os pensamentos sobre nossa condição humana tão imperfeita. Entre os dramas de amor e os dilemas da vida nos “exílios de cada dia”. Ficar religiosamente nas horas que restam deste primeiro de maio ao som das canções de Belchior, trovador de “Coração Selvagem” das coisas que não conseguimos dizer, mas sentimos e apenas sentimos, sem espaço para explicação.

Abaixo, uma de minhas canções favoritas: “Tudo Outra Vez”.

Foto destaque: Belchior em 1986. Antonio Lúcio/Estadão

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