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JÚLIO MIRAGAIA

Hoje, a partir das xx horas, direto de Curitiba, inicia a fase decisiva da operação Lava-Jato. De um lado, pesando xx quilos, um metro e tal e revestido de comunismo, o ex-presidente Lula. Do outro lado, pesando xx quilos e trajando pato amarelo, o juiz Sérgio Moro. Exageros à parte, é assim que vem sendo tratado nos últimos dias o depoimento do ex-chefe de Estado brasileiro, investigado por corrupção. Como um grande espetáculo, com direito a torcida para as duas “agremiações”. No “jogo decisivo”, temos que tomar partido por alguém, supostamente.

Da mesma forma também tem sido a vida e seus principais acontecimentos em todos os sentidos. Da guerra da Síria, passando pela final do campeonato carioca, pela série favorita e aterrissando no território da política, tudo se acomoda no sofá de casa ante a TV, ou na cama ante o notebook ou o celular.

Manifestações pró e contra Lula ontem, nas ruas de Curitiba. Foto: Reuters

A tecnologia trouxe facilidade para se comunicar, emitir opinião, se relacionar, mas ainda fica a impressão de faltar algo, com a sensação de incapacidade ou de reação inofensiva diante dos fatos. Estaríamos passando por algum tipo de “amortecimento intelectual do senso crítico” em tempos de redes sociais? Não sei.

É inegável como é positivo poder saber o que acontece no mundo com um clique. Como as pesquisas mais generalistas foram facilitadas. Mas ainda tratamos tantos assuntos de uma forma tão infantil quanto uma criança de colo poderia tratar.

Parecemos estar ainda numa pré-história da internet, engatinhando sobre como tratar o outro. Alguns num grau de agressividade que espanta. Outros, sem ter a noção de quão tresloucados são seus atos/comentários.

Voltando para a questão da política, certo binarismo tem sido acentuado e parece incapacitar as pessoas de entender que seus ídolos, tão verdadeiros ao tocá-los e analisá-los, tem pés, troncos e doutrinas de barro.

O estereótipo, a rotulação, parece ser a ordem que dispara dos dedos dos militantes virtuais que elegem seus heróis menos pelo que eles são, mas muito mais pelo que estão revestidos. E há claras diferenças aí.

Aproximação de Lula com setor empresarial nos anos em que governou não é parte da narrativa propagada por seguidores do ex-presidente. Foto: Veja

O ex-presidente Lula, por exemplo. Associado como progressista e de uma agenda política voltada para a igualdade social, teve banqueiros e empreiteiros lucrando como nunca ao longo dos anos em que governou. Mas não somente isso. Algumas bandeiras sociais históricas defendidas por seus aliados foram ignoradas em sua gestão, como o pouco ou quase nada feito pela reforma agrária. Dados do Dataluta/Unesp – Banco de dados da Luta pela Terra, do ano de 2013, mostram que nos anos FHC tiveram mais famílias assentadas que os do governo do PT.

O deputado Jair Bolsonaro, apontado como presidenciável da extrema direita, é outro modelo de “ídolo moderno” que também desliza nas incoerências, isso sem entrar nos temas polêmicos e esdrúxulos que o mesmo defende. A bandeira de combater a corrupção, por exemplo, parece estranha para um deputado que esteve sempre filiado a partidos ligados em tenebrosos esquemas, como PP e PSC. A movimentação mais recente na contramão do que ele diz defender é que, para disputar o Planalto, o mesmo está flertando com uma legenda em processo de legalização comandada por ninguém menos que Valdemar Costa Neto, um dos pivôs do mensalão. Aliás, Bolsonaro para quem não recorda foi base de sustentação do primeiro governo de Lula.

Presidenciável e ídolo na internet, o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) negocia migrar para partido de condenado no mensalão

Enfim, a reprodução de discursos prontos e frases de efeito imperam em detrimento do real conteúdo das ações de figuras públicas como Lula e Bolsonaro. Alguns elementos que colocam em contradição esses personagens são simplesmente ignorados por seus seguidores que criam ou acatam as narrativas que mantém os mesmos na condição de herói, atuando por um bem maior.

E nas águas turvas e cibernéticas destes dias vão se formando doutrinas, sem compromisso com a verdade, baseadas na boataria disseminada pela internet.

Os falsos argumentos, os falsos salvadores da pátria, as falsas verdades. Todos esses elementos integram paradoxalmente a realidade com mais força que a concretude dos fatos. Enquanto depositamos esperanças em um e outro, de acordo com nossa seletividade, admirando em um assento da igreja virtual nossos “falsos deuses”, vamos vendo afundar qualquer esperança de mudança positiva na sociedade.

Imagem destaque: Agência Brasil

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