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ANDRÉ SILVA

A saca da castanha-do-Brasil, ou castanha-do-Pará,  atingiu sua maior alta de preço já registrada nos últimos 11 anos. O fato está ligado a um fenômeno ainda estudado pelos pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Entre muitas suspeitas, a mudança climática é a mais provável.

Desde 2005, os pesquisadores vêm monitorando a produção nas sete reservas extrativistas (Resex) que têm mais de 70 mil castanheiras geo-referenciadas, espalhadas pelo Sul do Estado, do município de Mazagão até Laranjal do Jari.

“Realmente, a produção da safra desse ano foi a menor de todo esse período histórico”, confirmou o pesquisador da Embrapa, Marcelino Guedes.

Marcelino Guedes: menor produção em 11 anos. Fotos: André Silva

Ele explica que existe uma sazonalidade na produção do fruto que pode variar de dois a três anos e que está sendo estudado por uma equipe de pesquisadores não só da Amazônia Brasileira, mas em toda Amazônia Pan-americana.

“Junto com colegas de outros países que trabalham em uma rede estruturada de estudos sobre a castanha, estamos associando isso diretamente a questão das mudanças climáticas. Inclusive estamos trabalhando em um artigo para publicar e colocar todos os dados porque existem muitas pessoas preocupadas com essas questões”, revelou o pesquisador.

Ele lembra que, em 2015, o macapaense passou cerca de 100 dias sem uma gota de chuva no período do “verão amazônio” e que a castanheira tem um período de formação de fruto durante um período de 15 meses. A safra atual corresponde a flor que brotou no fim daquele ano.

“Ainda não comparávamos isso ainda, mas estamos estudando e a hipótese é essa, todos os indicadores apontam para esse sentido (mudança na estação das chuvas)”, afirmou Guedes.

Possíveis motivações para queda da produção

Entre as possibilidades do que tenha causado essa quebra da safra, também está a proliferação de um gafanhoto que, segundo o pesquisador, é comum aparecer de tempos em tempos nas áreas de castanhais. O inseto pode ter cortado as flores de onde viriam os ouriços, o que causou a quebra na sequência de produção do fruto.

Outra hipótese muito forte de quem já trabalha na extração da castanha há muitos anos é a falta da polinização das flores que é de responsabilidade de uma espécie de abelha conhecida como “mamangaba”. Para eles, o inseto está em extinção e isso pode ter ocasionado a baixa.

“Em estudos mais novos, no geral, está se detectando que existem mais espécies que polinizam a flor e esse mito está sendo derrubado”, refutou o pesquisador.

O fato é que a saca da castanha com 100 hectolitros atingiu a maior alta de todos os tempos de comercialização, podendo ser negociada hoje ao preço de R$ 750. Em relação ao ano de 2016 , onde a saca chegou a custar R$ 350, o valor dessa safra corresponde a mais de 100% de aumento.

Adamor Braga da Silva; falta da castanha elevou os preços

“A gente espera que em 2018 a safra aumente. Esse ano a oferta foi pouca e isso deu um pico no preço, mas isso foi bom para os extrativistas que puderam vender o que conseguiram colher a um preço muito bom e pode subir mais porque nós não temos mais castanhas. Tem alguns que estão indo buscar no mato, mas muitos já estão sem”,  disse Adamor Braga da Silva, da Cooperativa Mista dos Trabalhadores agro extrativistas do Rio Cajari.

Os municípios de Mazagão, Laranjal do Jari e Vitória do Jari, que formam a região sul do Amapá, são os maiores produtores no Estado de castanha da Amazônia (termo adotado por pesquisadores para agregar valor ao produto).

Além de ser muito calórica, ela é rica em selênio, um metal de grande importância à saúde do homem. Possui também cálcio, fósforo, magnésio, potássio, cobre e as vitaminas a, b1, b2 e c, além de proteínas.

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