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por WASHINGTON PICANÇO, advogado

Apesar de todas essas atrocidades bem-documentadas, mais de 30 anos após o fim do regime militar, algumas pessoas no Brasil parecem confortáveis em falar bem daquela época.

Durante os protestos pela renúncia de Temer e por eleições diretas, o famigerado decreto presidencial reabriu uma chaga e um temor de uma eventual intervenção militar.

O que é estarrecedor e preocupante, é que ficou comum ouvir conversas de como as coisas eram melhores quando os generais estavam no poder.

Ocorre que a classe política brasileira foi pega em um enorme escândalo de corrupção. O governo Temer fracassou e está lameado por escândalos, é impopular, e a sua remoção parece iminente, seja através de um impeachment ou através da cassação da Chapa Dilma/Temer pelo TSE.

Nessas condições, tornou-se mais fácil defender a extrema-direita, elogiar torturadores condenados como se tivessem salvado o país de um horror muito pior.

Bolsonaro é o rosto mais conhecido desse movimento. Ele defende o retorno ao regime militar há mais de 20 anos, mas ultimamente sua mensagem tem encontrado nova ressonância e atualmente é o candidato presidencial preferido dos mais ricos para as eleições de 2018, obtendo entre 15% e 23% de suas intenções de voto em pesquisas recentes. Mas ele não está sozinho.

Junto com outros políticos conservadores, ele pertence à poderosa bancada BBB (abreviação de Bíblia, Boi e Bala), que representa os interesses das forças de segurança, do agronegócio e das igrejas evangélicas.

Nem todos os membros da bancada são saudosos dos tempos do regime militar (ao menos não abertamente), mas parecem preferir uma ditadura de direita a um governo democrático.

A nostalgia do autoritarismo parece ter virado uma tendência. Bolsonaro diz que o povo brasileiro sente falta dos valores morais dos militares.

De acordo com uma pesquisa de 2014, 51% dos brasileiros acham que as ruas eram mais seguras durante o regime militar. “Foi uma época maravilhosa, em que se podia caminhar nas ruas com segurança e sua família era respeitada”, alega Bolsonaro.

Manifestante é arrastado por militares em 1964: qualquer um poderia ser considerado subversivo

Mas, na verdade, era muito possível que você ou sua família fossem rotulados pelo governo como “subversivos”, “terroristas” ou “inimigos do Estado”. Isso podia ocorrer com qualquer um que ousasse falar contra o regime ou mesmo uma mãe perguntando sobre sua filha assassinada. Esse foi o preço que o povo brasileiro pagou.

Há também uma impressão geral de que a corrupção, que está destruindo o atual governo, não existia naquele tempo. Isso não é verdade, é claro. Sabe-se hoje que durante o regime militar houve casos de policiais trabalhando com traficantes de drogas, e de governadores recebendo propina, entre outros exemplos de corrupção.

O que não existia naquela época era liberdade de expressão e liberdade de imprensa para denunciar os desmandos do Governo Militar.

Agora, a democracia significa que todos os cidadãos têm o mesmo status e que todos merecem uma voz. Talvez toda essa nostalgia pela ditadura militar trate-se realmente de manter as pessoas em seus lugares e sem ativismo ou protagonismo político, ou seja, bem distantes de Brasilia e do verdadeiro vandalismo que Temer e sua turma estão fazendo pelas bandas de lá.

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