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SELES NAFES

Invejado, odiado e admirado. O jornalista Carlos Lobato é daqueles sobre o qual todo mundo tem uma opinião. O fato é que a capacidade de dialogar com o ouvinte mais simples e com o mais intelectualizado, além do trânsito nas esferas mais altas do poder, fazem dele um dos maiores formadores de opinião do rádio amapaense.

Pais de dois filhos, o advogado, sociólogo e psicólogo conversou com o portal SELESNAFES.COM sobre hobbys, política, desafetos, intolerância nas redes sociais, drogas, a paixão pelos livros, e sua prisão na Operação Pororoca, de 2001, episódio que ele considera superado, apesar de admitir que sofreu muito na época.

Carlos Lobato é amapaense, filho de um motorista cearense e de uma dona de casa nascida no Arquipélago do Marajó. A mãe, dona Terezinha, se aposentou como professora, e o pai, Isaias, como motorista. O casal teve 9 filhos.  

Carlos Lobato, leitor compulsivo, advogado e jornalista

Que foto foi aquela (quase pelado) que você postou e gerou tantas reações?

Eu queria mostrar pro meu personal que o trabalho pra fortalecer minha musculatura superior estava indo bem. Mandei pelo whatsapp e depois postei no Facebook. Mas as pessoas se preocuparam em olhar pra parte debaixo, e não pra parte de cima, onde estava tonificado. Eu estava bem sentindo bem comigo mesmo. Eu ficaria nu de novo, mas se fosse por uma boa causa. É claro que algumas pessoas poderiam se decepcionar, mas seria por uma boa causa (risos).

O que te faz bem?

Ler, ouvir uma boa música, ver o meu Flamengo jogar e curtir a minha casa. Tem o Jeca Tatu, no interior, e eu sou o Jeca Urbanoide. Carrego a minha casa comigo, e amo a literatura. Estou lendo Os Franceses Inventaram o Amor, gosto do (Ernest) Hemigway, Gabriel Garcia Marques, Jorge Amado (…) Leio um pouco de tudo, no atacado e no varejo.  

Depois de tantas faculdades, como foi que o jornalismo entrou na sua vida?

Tenho um cunhado, o Vicente Rocha (cronista esportivo), que era narrador e montou uma equipe de esporte na Rádio Equatorial. Era ele, o Agord (Pinto), o Juarez Maués, Brito Lima e o Carlos Sérgio (publicitário). Eu era ponta de lança (repórter que fica atrás do gol). Isso 30 anos atrás. Depois continuei a estudar em Belém (psicologia e sociologia). Quando voltei, fui trabalhar com o Reginaldo Borges (Antena 1) e com o (Luiz) Melo, que me deu os primeiros passos no jornalismo de análise política. Foi assim que fiz o programa Opinião Pública, em 1995, no lugar do Corrêa Neto que tinha o Espaço Livre. Depois fiquei uma década com o Eraldo (Trindade, da 101 FM).

Com o amigo e compadre Carlos Sérgio, com quem iniciou a carreira de jornalista no meio esportivo

Quem foram os jornalistas que te influenciaram?

O Bonfim Salgado, pra mim, era o melhor jornalista de análise. Ele era muito preciso. Trabalhei com ele 5 anos na bancada do Melo, que pra mim também é uma enciclopédia. Depois tive outros parceiros.

E as outras profissões, você abandonou?

Só a psicologia eu deixei. Comecei como terapeuta, e depois percebi que todo o meu esforço para me formar não poderia ser usado apenas para “curar neurose de madame”. A psicologia tinha que ter uma aplicabilidade no campo social. Por isso fui ser professor de psicologia. Depois passei num concurso do governo federal e fui dar aula no antigo Ieta.

Como sociólogo, sempre atuei em projetos sociais, desde a LBA. O curso de ciências sociais te dá 3 caminhos: análise e pesquisa, antropologia, e ciência política, e foi por esse que eu enveredei.

A Operação Pororoca (onde ele foi preso, em 2001) foi superada? Restou algum trauma?

Seria uma incoerência dizer que não vivi um drama. Eu vivi. Tinha me preparado para ser preso quando estava na UNE. Apanhei, enfrentei a polícia no movimento das Diretas Já. Fiz a minha parte naquela época….

Jornalista político Bonfim Salgado, morto em 2012: referência. Foto: Acervo Taís Paranhos

Mas, na sua opinião, a sua prisão foi um erro, ou havia mais?

Pra mim foi uma barrigada (erro, no jargão jornalístico). Foi doloroso porque sabia que eu era inocente. Um rapaz morreu na obra da minha casa, e meu irmão, que é engenheiro, sugeriu cintos de segurança para fazerem a cobertura da minha casa. Fui na empresa do amigo dele (de construção civil) que estava grampeado (pela Polícia Federal). Ele (o empresário) me disse que estava arrumando a vida dele na Receita.

Eu liguei depois pra ele informando que tinha um contador que ia deixar tudo redondinho pra ele por um certo valor. Como ele estava grampeado, a impressão que o delegado teve, e não tiro a razão dele, é que havia um elo na Receita Federal, e naquele momento vários empresários da construção civil estavam sendo investigados por fraudes em licitações. O delegado achou que tinha gente esquentando certidões negativas para dar pra essas empresas. Nunca provaram porque eu nunca fiz isso. Hoje até brinco dizendo que já passei por lá (PF). Não desejo pra ninguém porque não contribuiu em nada para a minha formação, minhas atitudes. (…) Processei o delegado,  e já ganhei em 1ª instância.  

Muita gente te segue nas redes sociais. Como você lida com os intolerantes que não sabem debater e levam a discussão pro chão?

Depende do meu nível de estresse e absorção. Se a pessoa insistir eu tiro do meu “mundo”. O “bloc” deu a opção de a gente conviver ou não com alguém que tá fazendo mal pra gente. Até agora eu só bloqueei uma pessoa porque já estava na ofensa pessoal.

Sobre ex-Camilo Capiberibe, processo por danos morais

Sobrou algum conflito com o ex-governador Camilo Capiberibe?

O ex-governador ganhou uma ação de indenização contra mim, mas como governador ele nunca me processou. O advogado dele e ele têm até tido uma tolerância muito grande em relação ao cumprimento daquilo que é direito dele, que é a indenização por dano moral. Ganhei em 1ª instância e perdi no recurso na 2ª instância. O ex-governador sempre me respeitou como jornalista, e eu nada tenho a reclamar porque sempre fui muito crítico e ele nunca me processou. Mas na campanha da reeleição a coligação dele foi farta em processos contra mim. Depois ele alegou que perdeu pra imprensa…

Por falar nisso, você acha que ele perdeu pra imagem negativa ou por causa da gestão?

Eu acho que ele fez uma boa gestão. Ele perdeu porque não era a pessoa mais indicada pra ganhar. Ele só ganhou em 2010 pela variável interveniente que foi a Operação Mãos Limpas. Se não fosse isso, o governador seria o Pedro Paulo, os senadores seriam o Waldez e o Gilvam. Todos os favoritos perderam. Depois disso, o curso d’água retomou sua natureza. Aquele impacto todo da operação passou, e as águas começaram a avançar na direção dele. Foi natural ele perder. Antes de perder ele já tinha 78% de rejeição. Não era um estadista preparado, foi julgado pelo povo.

Você levantou uma bandeira contra as festas rave por causa do consumo de drogas, mas você em que toda festa rave é assim?

Em toda rave tem drogas. As raves são festas patrocinadas pelos traficantes. Por isso elas ocorrem escondidas (em locais isolados), porque ali a intenção é o comércio de drogas no atacado e no varejo. Não estou dizendo que o promotor seja traficante, mas por trás dele tem a mão do traficante.

Drogas que seriam vendidas em rave, segundo a Polícia Civil: toda festa rave tem droga, afirma o jornalista

Mas tem como proibir as raves?

Sim!

Baseado em que?

A chácara tem condições de segurança na avaliação do Corpo de Bombeiros? Em eventos acima de 1,5 mil pessoas é obrigatório ter equipes de socorristas e ambulâncias. A polícia cobra R$ 140 para emitir um alvará e os outros órgãos municipais também. Mas sem fiscalização não adianta nada. Um jovem morreu (em maio, na zona oeste de Macapá) porque não recebeu os primeiros socorros. O delegado do caso me disse que quando o jovem passou mal, ele foi posto pra fora da festa às 4h da manhã e a festa continuou até às 20h30min do outro dia. Não existe nenhuma licença que permite um horário desse. Durante a festa, o preço da água mineral sobe de R$ 5 para até R$ 20. Naquele embalo as pessoas perdem a noção. A rave não é a antessala do inferno, é o próprio inferno.

O que a Assembleia Legislativa poderia fazer sobre isso?

Poderia fazer uma lei para proibir as festas nesses locais isolados. São isolados para escapar da fiscalização.

Quantos anos você tem?

Já passei dos 50 verões.

Carlos Lobato prepara livro inspirado em título da obra de chileno Pablo Neruda

O que você ainda pretende fazer na vida?

Estou terminando um livro que tem o título parafraseado de um livro do Pablo Neruda que é “Confesso que Vivi”. Quero participar ativamente das eleições de 2018. Não quero ficar mais só na crítica. Fui convidado (a ser candidato), mas ainda não decidi. Em 2002, eu perdi por 211 votos. (…) Vou medir o tamanho da contribuição que eu posso dar e o quanto isso (o mandato) poderá impedir as minhas atividades. Eu gosto de ler, do jornalismo, do Tribunal do Juri, ouvir uma boa música, e vou medir. Política é uma renúncia. Quando os bons não participam, eles são governados pelos maus. Cansei de me decepcionar com os maus exemplos políticos.

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