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OLHO DE BOTO

A mesa do delegado Glemerson Arandes, na Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio (DECCP) de Macapá, está lotada de casos envolvendo celulares roubados. E a pilha só cresce. Os aparelhos continuam sendo alvo dos assaltantes por um fato, infelizmente, cultural: as pessoas continuam dispostas a comprá-los, mesmo se arriscando a serem processadas e presas.

De acordo com o delegado, este ano dezenas de pessoas já foram indiciadas por receptação. Só comerciantes foram 5. Nesses casos, o indiciamento ocorre por receptação qualificada caracterizada, principalmente, pela destinação comercial dos aparelhos roubados ou furtados. A pena, nessas situações, é de 4 a 5 anos de prisão.

Ultimamente, para atrair cada vez mais compradores na internet, os criminosos estão oferecendo nas redes sociais os aparelhos roubados com notas fiscais falsas.

“Temos um caso aqui que a nota fiscal seria das Americanas, indicando o modelo e o valor de R$ 999. Mas, quando fomos ao site da Receita Federal e digitamos o número da nota fiscal, o valor é outro, de R$ 12 (doze reais), e o nome da pessoa é outro. Se você tem dúvida sobre a autenticidade da nota entre nesse site e verifique”, ensina o delegado.

Delegado Glemerson Arandes: enquanto tiver comprador, vai ter gente matando e roubando celular. Fotos: Olho de Boto

Em situações assim, em que notas fiscais são falsificadas, os criminosos se complicam ainda mais porque aumentam contra si a quantidade de crimes, como fraude processual e falsificação de documento.

Alguns casos são tão absurdos na relação entre clientes gananciosos e os vendedores criminosos que chegam a surpreender a polícia. As pessoas estão dispostas a se colocar em situação de perigo.

“A mãe foi com o filho de 15 anos encontrar com o sujeito numa rua escura para comprar um celular de última geração. Era porque ela precisava muito do celular? Não. Pura ganância. E ainda aceitou, em vez de uma nota fiscal, uma ordem de serviço que era de São Paulo”, comentou Arandes.

Pilha de casos só cresce

“Não adianta dizer que o país está cheio de ladrão se você compra o que o ladrão vende”, critica.

Investigar o roubo de um celular é extremamente cansativo e complexo para a polícia, que deixa de cuidar de assuntos mais graves. Há casos em que, para chegar a um criminoso, foi necessário ouvir o depoimento de 12 receptadores.

“Não temos um botãozinho que apertamos para encontrar o celular”, lembra Arandes.

“As pessoas compram o celular não porque precisam, mas por ostentação. Tem gente que não tem o que comer, mas acha que precisa de um J7 ou um A5. Nesse objetivo, elas acabam comprando produtos roubados”.

“Tem até caso de rerroubo. Uma menina, que comprou um celular roubado, teve o aparelho levado em um assalto na loja onde ela trabalhava. (…) Enquanto existirem pessoas na internet comprando celular roubado, vai ter gente na rua roubando e matando”, conclui.

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