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Ágora, coluna de JÚLIO MIRAGAIA

Estrangeiro do próprio rio, da própria terra e do próprio mato. Essas, talvez, sejam tentativas de definições que se aproximam de um termo que expresse quão distante um morador de uma capital de um estado da Amazônia, como eu, possa ser da sua identidade cultural, apesar dela estar ao lado de casa, literalmente.

Tentando abandonar o auto-estrangeirismo, na manhã do último domingo (10) aproveitei para descobrir um pouco mais sobre o quilombo do Curiaú, num trabalho de pesquisa que desenvolvo junto com a artista visual Valéria Ramos e a professora Claudete Nascimento Machado, ambas do Ewê, grupo de pesquisa em linguagens artísticas e cultura da Unifap. Participam também do projeto o repórter André Silva e o desenhista Roberto Vanderley.

Visitamos uma área batizada pelo pai da Valéria, morador do quilombo, como “Caminho da Felicidade”. Trata-se do terreno do seu João Ramos, 58 anos, privilegiado pela rica vegetação do Curiaú e a paisagem exuberante, marcada por um belo gramado, árvores frutíferas e plantas que transbordam espontaneamente poesia.

Ilha do Piauí. Um pedaço dos encantos naturais do Curiaú. Fotos: Júlio Miragaia

Sob um sol que transitava entre o agradável e o escaldante, e com o lago seco, caminhamos por cerca de 3 horas, visitando outras áreas, como a ilha do Piauí, e caminhos ainda não batizados, porém marcados pelas aparições de “encantados”, num passado não tão distante.

“Encantados” são entidades sobrenaturais que, segundo testemunhas ainda vivas, faziam (e talvez ainda façam) constantes aparições e contatos com os moradores da comunidade.

Sobre esse tema, peço licença para não dar maiores explicações ao leitor. Digo apenas que visitamos igarapés onde a “Pelada do Baixo”, uma bola vermelha semelhante a um crânio, apareceu pelos anos 1970. Fomos também até caminhos onde o “Carrega”, entidade invisível, arrumava os mururés na água. E também andamos pelos campos onde mulheres encantadas apareciam convidando homens para caminhadas por lugares desconhecidos.

São relatos que chamam atenção para toda uma história pouco ou nada conhecida pela cidade.

Lago com água em nível baixo vira campo de futebol

Seguimos nossa caminhada até uma vila onde fomos convidados por um casal de moradores para apanhar uma porção de um limão, o qual não sei o nome. Amarelo por dentro como uma laranja, o fruto enche os olhos e surpreende pelo sabor. Saímos felizes dali com as novas amizades.

Encerramos a primeira etapa da nossa jornada voltando para o carro e para a rodovia, com pausa no bar da Helena Leite, próximo do balneário. Entre uma cervejinha gelada e outra, ela nos serviu um bolinho de piracuí maravilhoso.

Bolinho de piracuí do bar da Helena leite: aprovado!

O trabalho de campo seguirá nos próximos dias. Entrevistas e registros de locais até então desconhecidos vão fazendo com que me sinta como uma criança que abre as páginas de um livro e começa a entender o que está ali escrito.

Vamos aos poucos exorcizando os estrangeirismos para, parafraseando o poeta Manoel de Barros, aprendermos os sotaques dos ventos e do sol de nossa terra.

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