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ÁGORA, coluna de JÚLIO MIRAGAIA

O significado dos acontecimentos de nossa época só serão percebidos em sua essência após o passar de algum tempo. Somente com esta premissa, conseguimos olhar para o passado e entender os caminhos tenebrosos pelo qual a humanidade passou (e hoje volta a passar), leia-se idade média, holocausto, guerras, ditaduras e tantas e tantas atrocidades surgidas em complexos processos sociais.

Os dias atuais estão aí para nos ensinar. O ovo da serpente do fascismo começa a se quebrar no mundo nas mais variadas vertentes. Na Europa, no Oriente Médio, nos Estados Unidos, em todo o globo. Para cada pedaço do mapa há uma variante de ultradireita, populista, violenta e intolerante e que canaliza a indignação popular.

Temos a nossa própria versão tupiniquim desse fenômeno, expressa no caso Bolsonaro. No Brasil, o conservadorismo sequestrou uma importante fração juvenil dos que foram para as ruas em junho de 2013 para o projeto político de um nacionalismo exacerbado, militarizado e religioso como a saída programática para a crise do país.

Novos protagonistas políticos tem agenda conservadora para o país. Foto: reprodução/internet

Tempos como esses nos fazem repensar estratégias e táticas pessoais e coletivas diante dos desafios existentes. Começo a repensar a conjuntura política e não vejo nenhum crime em tal ato. Nossa formação intelectual é sucessiva de acertos e erros relativos, dependendo do ponto de vista de quem analisa.

A histeria e a perseguição ao processo artístico criativo e com as bandeiras progressivas como as do movimento feminista, LGBT, aos jovens da periferia e aos direitos humanos são provas explícitas de que não estamos na mesma situação de 10 anos atrás, quando esses segmentos sociais tinham grande simpatia no senso comum.

 De fato, ainda não vivemos uma grande noite política, mas certamente podemos caminhar para isso se os setores progressistas não forem capazes de avançar a uma tática comum. A falta de percepção do que realmente é necessário fez em diferentes momentos da história que a sociedade pagasse o preço, perdendo liberdades democráticas e pagando com a própria vida o preço de derrotas no campo político.

Obra questionada na exposição do Queer Museu. Suposta profanação

Ignorar a existência de uma onda conservadora ou minimizá-la não é algo que ajude a entender a realidade no Brasil e no mundo.

Penso que é tempo de uma unidade não romântica nem hipócrita, mas algo que posso denominar como “unidade realista”, em busca de reconquistar o que se perdeu da sociedade para uma agenda conservadora que não é a solução para nossos problemas. Se não tivermos clareza do que precisamos fazer para derrotar o embrião do fascismo e sua frente intolerante em nosso país, e continuarmos na lógica da “diferenciação da diferenciação”, sermos engolidos pelos ventos da história será a ordem destra a qual estaremos inevitavelmente destinados.

Como na belíssima canção de Mercedes Sosa, “Todo cambia”. O mundo, o superficial e o profundo mudam espontaneamente e a vida nos leva ao encontro de caminhos não pensados. Deixo aqui no encerramento deste artigo de imprecisas divagações os versos e a voz mais arrebatadora da América Latina.

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