MANOEL DO VALE
Na escola Mario Quirino, ninguém esconde o medo da onda de violência que nos últimos meses tem, disciplinadamente, frequentado as escolas de Macapá. Não são poucos os alunos e professores que abdicaram de levar o aparelho celular para as salas de aula com medo de que os maus elementos resolvam fazer um arrastão nas classes.
Mas também não é nenhum segredo de que professores, funcionários e alunos daquela escola têm se esforçado para manter a normalidade. E, diante da crônica de um assalto anunciado, viveram a última semana mergulhados na construção de crônicas, memórias literárias, artigos e poemas para fazer bonito na Olimpíada de Língua Portuguesa, cujo tema desse ano não poderia ser mais instigante: O lugar onde vivo.
Iniciativa do Ministério da Educação, com o Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) e a Fundação Itaú Social, a Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro é um concurso de produção de texto para alunos das escolas públicas brasileiras, do quinto ano do ensino fundamental ao terceiro ano do ensino médio.
Segundo o Ministério da Educação, o tema proposto objetiva estreitar os vínculos do estudante com sua comunidade, fazendo-os refletir sobre sua realidade para expressá-la utilizando um dos quatro gêneros sugeridos para a redação.
Na semana passada foram feitas a seleção dos textos produzidos pelos alunos, sob a orientação dos professores nas oficinas de produção de texto, na etapa estadual do concurso.
Para a poeta Carla Nobre, uma das professoras envolvidas no projeto na Mario Quirino, o importante de trabalhar as oficinas da Olimpíada é que estas possibilitam aos alunos reconstruir o conceito que estes têm da sua cidade. Rever estes conceitos para poder realmente intervir no mundo onde ele vive, a partir do novo olhar que a Olimpíada proporciona, trazendo à toma as situações polêmicas.
“Diante disso, as nuances do cotidiano ganham nova dimensão e significado; as áreas de ressaca também, como é o caso do artigo selecionado que fala disso”, diz a professora.
“E no caso do poema, possibilita ao aluno um olhar mais lírico à sua cidade. O texto das memórias literárias que foi selecionado, fala sobre o Bairro Buritizal, a partir das memórias de uma moradora antiga, a dona Zazá. Já a crônica, que irá representar a escola na fase estadual da Olimpíada, fala das lições que um adolescente aprendeu com seu pai em uma viagem ao interior, onde ele plantou mandioca, nadou no rio e aprendeu a pescar”, pontuou a professora.
A maioria das redações de artigo de opinião se pautaram em temas polêmicos do Amapá, como o fim da pororoca com o assoreamento do rio Araguari, assim como a mortandade de peixes nas águas daquele mesmo, e as ressacas, onde a autoria, um aluno do ensino médio, aponta os próprios políticos como responsáveis pela invasão e permanência de famílias nesse importante ecossistema para a manutenção da fauna aquática e o clima da cidade, financiando construções e aterros em troca de votos.
Todos temas atuais e de grande importância para o debate sobre a cidade, inclusive o da violência nas escolas, que estão longe de serem resolvidos.
A coordenadora da Olimpíada no Amapá, Aline Salvador, adianta que o estado este ano participou com 252 escolas, o maior número em todas as edições.
Veja o cronograma das etapas da Olimpíada e prepare sua torcida, porque para mudar o lugar onde a gente mora, as palavras ainda têm muita força.