Tia Zefa: 103 anos de Marabaixo, luta e alegria

Josefa Lina da Silva, a Tia Zefa, é a mais antiga moradora do tradicional bairro do Laguinho, na região central de Macapá.
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Por MARCO ANTÔNIO P. COSTA

Aos 103 anos de idade, Josefa Lina da Silva, a Tia Zefa, é a mais antiga moradora do tradicional bairro do Laguinho, na região central de Macapá. Ela é uma verdadeira memória viva da luta do povo negro e da história recente do Amapá.

Compositora e cantora de Marabaixo desde a infância, Tia Zefa é testemunha ocular da retirada dos negros e negras que moravam na frente da cidade de Macapá, no lugar onde hoje é a residência oficial do governador e do prédio da Ordem dos Advogados do Brasil, da Praça Barão e suas cercanias.

Tia Zefa morava mais “embaixo”, perto do lugar que hoje conhecemos como Formigueiro ou Largo dos Inocentes, em uma casa ao lado da “Tia Luzia”, como ela chama a saudosa parteira Mãe Luzia, que dá nome à maternidade estadual.

Tia Zefa com a filha Raimunda Lina da Silva e a neta Luana Fabrícia da Silva. Fotos: Marco Antônio P. Costa/SN

Todos os negros mais lembrados da história do Amapá são contemporâneos da Dona Josefa Lina. Seu avô, João Clímaco, é o compositor de um dos mais famosos ladrões de Marabaixo, o que tem como refrão “Rosa Branca Açucena, o, lê, lê/se case com a moça morena, o, lê, lê”.

Afilhada de Julião Ramos (personagem histórico amapaense, que dá nome oficial ao bairro do Laguinho), ela contou ao Portal SelesNafes.com como foi trabalhosa sua vida.

Lembra que ia capinar roça na propriedade da senhora Antônia Barca, indo e voltando a pé para o “Atalho” (proximidades do Curiaú). Também foi lavadeira, tendo sempre pelo menos cinco famílias para quem lavava as roupas.

Uma das suas únicas queixas é justamente não poder mais trabalhar. Há 3 anos Tia Zefa perdeu a visão. Mãe de 10 filhos, tem dezenas de netos, bisnetos e também tataranetos. 

Aos 103 anos de idade a lucidez de Tia Zefa impressiona

Também explica que a maioria dos negros não gostou muito da chegada do Coronel Janary Gentil Nunes (enviado pelo presidente Getúlio Vargas para governar o então Território Federal do Amapá), mas que ninguém nada falava.

Ela fala com carinho do padrinho Julião Ramos, que, segunda ela, “não era de puxar ladrão de marabaixo”, mas organizava as festas.

Aos 103 anos de idade a lucidez de Tia Zefa impressiona.

“Até hoje se eu pudesse eu cantava Marabaixo, mas já não dá mais. Quando o Coronel Janary chegou, nós trabalhava de manhã e quando era de tarde a gente ia pro batuque de São Joaquim, em agosto. A gente dançava, tocava e quando era uma hora a gente voltava pra cá, a pé”, contou Tia Zefa.

Consciência negra

Quando nasceu, em 26 de fevereiro de 1916, havia passado apenas duas décadas que a escravidão tinha sido abolida oficialmente no Brasil através da Lei Áurea de 1888. Mas ela conta que os mais velhos, seus tios e avós, não gostavam de falar sobre a escravidão.

Mãe de 10 filhos, tem dezenas de netos, bisnetos e também tataranetos

“Naquela época os mais velhos não falavam com as crianças. A gente ficava perto e ouvia algumas coisas, mas ninguém gostava de falar da escravidão”, contou Tia Zefa.

Quando perguntada sobre a vida, como ter longevidade e se a vida lhe tem sido boa, Tia Zefa não tem dúvida.

“Não tem segredo pra viver tanto. Deus é quem sabe. Quando alguém me pergunta se vai viver muito eu só falo isso: Deus é quem sabe. A vida foi boa, fui e sou muito feliz. Cresci, cantei ladrão, criei meus filhos e hoje tenho um monte de netos. O tempo não é seu, é nosso”, finalizou Tia Zefa.

Seles Nafes
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