Por RODRIGO DIAS
A trajetória de Reginaldo Queiroz Silva, 28 anos, é um testemunho poderoso da força da educação pública e da resiliência. Nascido e criado no bairro Novo Horizonte, zona Norte de Macapá, filho de uma costureira e de um vendedor ambulante, ele acaba de conquistar o sonhado diploma em Medicina – transformando em realidade um objetivo que parecia inatingível.
Sua história é também um tributo ao Sistema Único de Saúde (SUS), que tanto admira, e aos valores inegociáveis aprendidos em casa.
Reginaldo é o caçula de seis filhos de Maria Assunção, de 70 anos, que saiu de Breves (PA) ainda criança para trabalhar como babá e depois doméstica, e de Francisco João, de 79, que por anos percorreu quilômetros sob o sol empurrando um carrinho como vendedor ambulante, o popular “marreteiro”.

Defesa de TCC

Já no 2º ano de curso Reginaldo já fazia atendimentos em UBS

Atendimento em área de ponte de Macapá durante o 1º ano do curso, quando acadêmicos começam a fazer parte da interação entre ensino, prática e comunidade

Reginaldo é apegado aos pais, sua fonte de força e inspiração para nunca desistir
“Meus pais não puderam me ajudar financeiramente como talvez outros ajudariam, mas me deram muito mais: foram exemplo vivo de perseverança. Eu costumo pensar que cada noite que minha mãe passou costurando, cada dia que meu pai passou vendendo na rua, tudo isso também faz parte do meu diploma”, afirma Reginaldo.
Criado com base no trabalho honesto e na dignidade, ele viu nos pais a prova de que é possível resistir e seguir adiante, mesmo sem estabilidade financeira.
Sempre estudante de escola pública, a paixão pela Medicina – inicialmente vista como um sonho distante – floresceu através do ativismo social. Envolvido em discussões sobre educação, juventude e promoção da saúde, descobriu no SUS e na luta por equidade a motivação para se tornar médico. O contato com figuras do movimento, como Fábio Mesquita, referência na luta contra o HIV/AIDS, consolidou seu interesse pela infectologia e reforçou a admiração pelo modelo brasileiro, que garante acesso universal e medicação gratuita.
“A gente não vê crianças morrendo por desidratação no Brasil porque crescemos com o SUS ativo. É tão básico para a gente, que chegamos a criticar. Tudo isso me trouxe para perto da saúde”, lembra.

Em 2015, em Harare, no Zimbábue, durante o ALL IN, programa que luta pelo fim do HIV/AIDs em adolescentes na África

1º dia do curso, com a mãe vestindo Reginaldo com o jaleco: gesto simbólico do que viria pela frente. Fotos: Arquivo Pessoal

Com dona Maria Assunção na formatura

Atendimento à população da capital
A aprovação, porém, veio após uma trajetória marcada pela desigualdade de oportunidades. O conteúdo aprendido na escola pública não era suficiente para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), e a família não tinha como arcar com cursinhos específicos para as seleções do curso, que custavam entre R$ 700 e R$ 1.500 – o equivalente a toda a renda mensal familiar.
A saída foi se reinventar: dividiu cursinhos online com amigos, baixava aulas em locais com internet emprestada e usava apostilas gratuitas. Depois de quatro anos de preparação, conquistou a vaga, mas ainda enfrentava o desafio da logística. Para chegar à Universidade Federal do Amapá (Unifap), eram necessários dois ônibus na ida e dois na volta, em um trajeto de até quatro horas diárias.
“Quatro horas que eu poderia estar estudando ou me dedicando a outras atividades”, desabafa.

Reginaldo e outros profissionais de saúde em ação para população indígena na Aldeia do Manga, em Oiapoque

Internato rural: semana de estágio na Ilha de Santana

Atendimento no internato rural no município de Amapá
Apoiado por bolsas e auxílios da instituição superior, Reginaldo ainda complementava a renda com trabalhos extras: elaborava roteiros de pesquisa e ajudava colegas em troca de ajuda de custo.
Sua história ganhou repercussão nacional recentemente, quando viralizou nas redes sociais ao relatar que, mesmo vindo de uma família humilde e enfrentando tantas dificuldades, conseguiu se formar em Medicina.
Atualmente, ele atua em pronto atendimentos e clínicas em Macapá e Santana, e se prepara para a Residência Médica, com interesse nas áreas de Clínica Médica e Otorrinolaringologia.
Reginaldo é categórico ao defender a educação pública, que considera responsável por sua trajetória.

Serviços de costura de dona Maria Assunção ajudaram na criação dos seis filhos

Internato em pediatria

Com os pais, Maria Assunção e Francisco João, orgulhosos na formatura
“Eu sou a prova de que, mesmo com todas as dificuldades, o ensino público tem força para transformar vidas. Acreditar nele, para mim, é também lutar para que seja cada vez mais inclusivo, de qualidade e com condições reais para que os estudantes consigam sonhar e conquistar”, destaca.
Para os jovens que se preparam para o Enem, deixa uma mensagem:
“Não desistam. Mesmo quando parece impossível, lembrem que existem muitos como vocês, e que cada esforço está construindo o futuro. A aprovação não vem só de material bom ou de condições ideais: vem muito da resiliência, da disciplina e de acreditar que é possível. Persistam, porque chegar lá vale muito a pena”.
A rotina profissional e os serviços oferecidos por Reginaldo podem ser acompanhados em seu perfil no Instagram @naldoqs ou agendados pelo WhatsApp (96) 92001-3429.

