Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
Uma mobilização iniciada nesta semana nas redes sociais busca transformar a dor de uma perda trágica em um legado de proteção para outras mulheres no Amapá. Familiares e amigos de Jenife do Socorro Almeida da Silva lançaram uma campanha para que o nome da santanense denomine a Casa da Mulher Brasileira, que será inaugurada em Macapá.
Jenife, que abriu mão de uma carreira de quase dez anos no setor bancário para realizar o sonho de ser médica, teve a vida interrompida precocemente. Aos 37 anos, ela foi vítima de feminicídio em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, pouco antes de receber o diploma de medicina — documento que a família recebeu posteriormente em caráter póstumo.
O pedido, endereçado às autoridades estaduais e federais, argumenta que a trajetória de Jenife representa a força da mulher brasileira e a necessidade de políticas públicas que ultrapassem fronteiras.
“A indicação do nome representa não apenas uma homenagem, mas um ato de memória, justiça simbólica e transformação social”, diz o texto da campanha.

Jenife do Socorro Almeida da Silva, santanense vítima de feminicídio na Bolívia, deixou dois filhos e teve seu diploma de medicina concedido postumamente. Fotos: arquivo familiar
Para Francimone Almeida de Souza, amiga de infância de Jenife e uma das vozes à frente do movimento, a homenagem é uma forma de ressignificar a dor da família.
“Acreditamos que, pela pessoa que ela foi e pelos serviços prestados, essa homenagem ajudará a amenizar nossa dor”, afirma.
A campanha já ganhou contornos institucionais. O grupo confirmou contatos com diversas lideranças políticas, incluindo o Senador Randolfe Rodrigues, o Governador Clécio Luís e a Secretária Aline Gurgel, responsável pela destinação da emenda para a obra.
Em Santana, cidade natal de Jenife, a vereadora Ithiara Madureira já apresentou um Projeto de Lei que tramita na Câmara Municipal em apoio à memória da médica.
Luta por Justiça
Enquanto busca a homenagem, a família mantém outra frente de batalha: a condenação do envolvido no crime que ocorreu em abril de 2025. Segundo Francimone, o processo segue na fase de análise de provas periciais (fotos e vídeos) encontradas no celular de um menor de 16 anos.
“A família continua na luta. O processo é feito por partes e estamos trabalhando para que o caso não caia no esquecimento”, pontua a amiga.
Jenife deixou dois filhos, hoje com 18 e 12 anos. Sua mãe, Delma Garcia, faleceu apenas três meses após a morte da filha, evidenciando o impacto devastador da tragédia no núcleo familiar.

Jenife foi vítima de feminicídio em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, pouco antes de receber seu diploma de medicina, concedido postumamente à família
Como apoiar
A campanha segue ativa nas redes sociais. Os organizadores pedem que a sociedade civil compartilhe as postagens marcando as autoridades competentes para que o pedido seja apreciado antes da inauguração oficial do prédio.
Casa da Mulher Brasileira
O espaço público que será entregue brevemente tem o objetivo de dar celeridade e apoio ao atendimento às mulheres que estão no ciclo da violência e em situação de vulnerabilidade social. A gestão do prédio será de responsabilidade da Secretaria de Estado de Políticas para Mulheres (SEPM).
Serão reunidos serviços especializados como acolhimento e triagem, apoio psicossocial, delegacia, juizado especializado, Ministério Público, Defensoria Pública, promoção de autonomia econômica, brinquedoteca, alojamento e central de transportes, detenção provisória e espaço de convivência.
