Com quase 40 BOs, ex-falso advogado agora ataca de ‘jornalista’

Kyldelle Ryan coleciona 37 boletins de ocorrência, quase metade por estelionato
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Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá

O que poderia ser uma carreira na comunicação tornou-se, na verdade, um escudo para uma extensa trajetória de crimes em Macapá. Kyldelle Ryan Araújo dos Santos, de 23 anos, que atualmente se apresenta como repórter em página de notícias e programa de TV locais, possui uma ficha policial com 37 boletins de ocorrência, sendo 15 deles por estelionato, além de ameaça, calúnia e apropriação indébita.

A reportagem do Portal SelesNafes.Com (o verdadeiro Portal SN) teve acesso a documentos que detalham como Ryan, desde a adolescência, utilizou diferentes máscaras — de jornalista a advogado — para ludibriar vítimas e obter vantagens ilícitas.

O início: ameaças à própria família

O histórico de Ryan com a Justiça começou cedo. Em julho de 2017, aos 15 anos, ele foi alvo de uma representação do Ministério Público do Amapá na Vara da Infância e Juventude. Na época, o adolescente utilizou o Facebook para proferir ofensas graves e ameaças de morte contra sua madrasta. Ao ser inquirido, confessou o ato, alegando conflitos familiares, mas a agressividade das palavras (“puta”, “vagabunda” e promessas de “mal grave”) já acendia o alerta das autoridades.

Apreendido aos 17 anos. Foto: G1 Amapá

…foi conduzida pela PM após denúncias

O golpe do “falso emprego”

Em janeiro de 2020, aos 17 anos, Ryan foi apreendido pela Delegacia Especializada em Investigação de Atos Infracionais (Deiai). Ele fingia ter 21 anos e se passava por jornalista e assessor parlamentar para aplicar o chamado “golpe do crachá”. Por meio de grupos de WhatsApp, oferecia vagas falsas com salários de R$ 1.200, mas exigia o pagamento antecipado de taxas para uniformes e material. Pelo menos sete vítimas compareceram ao Ciosp do Pacoval à época para denunciar o prejuízo.

Abuso de confiança contra idosos

Os casos mais recentes e graves envolvem a exploração de pessoas vulneráveis. Em julho de 2024, a família de um homem de 76 anos denunciou Ryan na 5ª DP. O acusado teria convencido o idoso a assinar uma procuração sob o pretexto de resolver problemas judiciais. De posse do documento, Ryan teria realizado um empréstimo consignado de R$ 5 mil e sacado dois meses do benefício do INSS da vítima, além de se apropriar de documentos de terrenos e cartões pessoais.

Kyldele Ryan coleciona BOs por estelionato

Dívidas de R$ 25 mil e vingança pornográfica

Em setembro de 2024, um processo no 5º Juizado Especial Cível da Zona Norte de Macapá revelou uma nota promissória assinada por Ryan no valor de R$ 25 mil, referente a um empréstimo pessoal nunca pago.

Dois meses depois, em novembro de 2024, Ryan foi denunciado por um professor com quem manteve um relacionamento. Segundo boletim registrado na 2ª DP, após o término, ele passou a enviar vídeos íntimos da vítima para terceiros com o intuito de difamá-lo.

Venda falsa de iPhone e golpes recentes

Em janeiro de 2025, uma mulher procurou a polícia após negociar a compra de um iPhone 16 anunciado no status do WhatsApp. Após contato com Ryan, que se identificou como advogado e afirmou trabalhar na Delegacia da Mulher, a vítima realizou duas transferências via Pix — nos dias 7 e 9 de janeiro — totalizando R$ 2 mil. O aparelho nunca foi entregue, e o acusado deixou de responder às mensagens.

Atualmente se identifica como repórter e atua para uma página de notícias

Outro registro, datado de outubro de 2025, reúne denúncias de quatro mulheres que cursaram Técnico em Enfermagem por uma instituição vinculada à Escola Municipal J. Almeida. Sem conseguir o certificado, elas relataram ter pago valores a Ryan, que se apresentou falsamente como advogado, cobrando R$ 250 de cada uma, além de taxas adicionais. Segundo as vítimas, ele vem aplicando golpes semelhantes em Macapá com o mesmo modo de operação.

Há ainda comunicação formal feita por uma advogada informando que Ryan, seu ex-funcionário, estaria cobrando e recebendo valores indevidamente em nome dela, além de se passar por advogado. Um dos valores, no montante de R$ 3 mil, foi transferido para uma conta no PagBank Digital e posteriormente solicitado de volta à comunicante, sob a alegação de empréstimo.

Venda de Iphones e falsas promessas de aposentadoria

Falsas promessas de aposentadoria

Em outro boletim registrado no Ciosp, vítimas relataram que Ryan se passava por advogado e prometia aposentadorias judiciais de familiares. Os prejuízos somam R$ 640 e R$ 500 para duas mulheres. Em ambos os casos, ele teria combinado honorários de R$ 5 mil, recebido parte do valor, desaparecido e trocado de número de telefone. As vítimas relataram ainda que ele exibia uma carteira falsa da OAB para dar credibilidade às propostas. Os fatos ocorreram em julho de 2024.

Apesar da quantidade de denúncias, processos e inquéritos — incluindo investigações ativas por estelionato e crimes contra a honra —, Kyldelle Ryan continua atuando na mídia local.

O Portal SN conversou com dois ex-presidentes do Sindicato dos Jornalistas, que confirmaram a necessidade de um profissional de jornalismo possuir o registro do Ministério do Trabalho. Mesmo que não tenha formação em comunicação social, é necessário que o comunicador possua a anotação no órgão do governo federal. Fora desse cenário, é considerado exercício ilegal da profissão.

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