Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
Na tarde de terça-feira (17), as ruas do bairro Jesus de Nazaré, antigo Jacareacanga, foram tomadas por vozes, faixas e camisas estampadas com uma mensagem clara: o Soli é do povo. A mobilização começou nas vias do bairro e seguiu para o tradicional bloco “A Banda”, resgatando as origens do antigo bloco do Soli.
Em caminhada pacífica e ordeira, moradores, ritmistas, baianas, ex-diretores e simpatizantes da Associação Recreativa Império de Samba Solidariedade protestaram contra o que classificam como uma década de retrocessos na agremiação.
O movimento, batizado de “SOS Soli”, afirma que a comunidade não reconhece a legitimidade da atual gestão. Segundo os manifestantes, Jair Sampaio assumiu a presidência após a então gestora Lizete Jardim deixar o cargo para disputar a presidência da Liga das Escolas de Samba do Amapá. Com a não recondução de Lizete à direção da escola, Jair permaneceu no comando, o que não agradou a comunidade após alguns carnavais e eleições restritas.
“A vontade do povo é soberana, e a comunidade não o elegeu para nos representar. Ele não nos representa”, afirmam.

Comunidade questiona legitimidade da presidência e defende retomada das eleições diretas na agremiação. Fotos: arquivo pessoal

Movimento “SOS Soli” nega sabotagem no desfile e afirma ter ajudado integrantes durante a apresentação
A insatisfação ganhou ainda mais força neste carnaval, quando a escola foi desclassificada. Para os integrantes do movimento, o episódio simboliza o ápice de um processo de decadência marcado por falta de planejamento, ausência de transparência e distanciamento da comunidade.
“A cada ano a escola vem enfrentando dificuldades, mas desta vez fomos expostos ao vexame público por total irresponsabilidade da gestão”, declarou um dos participantes.
O movimento “SOS Soli” também reagiu a informações divulgadas por parte da imprensa, que insinuaram sabotagem por parte da comunidade durante o desfile. A acusação foi rechaçada com veemência.
“Jamais faríamos algo para prejudicar a escola. Pelo contrário, estávamos ajudando”, disse Marcelo Borges, um dos líderes do ato.

Protesto pacífico reuniu moradores, ritmistas e antigos dirigentes em defesa da história e identidade da escola
Segundo ele, integrantes do movimento auxiliaram no deslocamento das baianas, que teriam recebido fantasias incompletas e enfrentaram dificuldades na concentração.
“A comunidade ajudou a passagem entre os carros alegóricos. Não aceitaremos que joguem sobre nós a culpa pelo fracasso”, acrescentou.
Entre as principais reivindicações estão a democratização da gestão, com assembleias abertas e eleições transparentes; prestação de contas dos recursos públicos e privados; resgate da história e valorização dos fundadores; planejamento antecipado do carnaval; maior participação popular nas decisões; e a reabertura da quadra para atividades culturais e sociais.
“Nosso propósito é ampliar o debate de forma respeitosa, colocando a escola acima de interesses individuais”, reforçou Marcelo.
Outro ponto sensível é a mudança do estatuto da agremiação. De acordo com os manifestantes, o modelo anterior previa eleições diretas. Após alterações realizadas durante a atual gestão, a escolha da presidência teria passado a ser definida por um grupo restrito do Conselho Deliberativo.
Ainda de acordo com o movimento, Jair Sampaio sustenta que sua permanência é legal e amparada pelo estatuto vigente. Já a comunidade questiona a legitimidade da mudança e cobra participação efetiva nas decisões.
“Não existe escola de samba sem comunidade. Se ela não decide, como pode ser representada?”, indagam.

Mudanças no estatuto e decisões administrativas recentes ampliaram tensão entre diretoria e comunidade
A tensão é visível. Moradores relatam que o presidente circula acompanhado por seguranças e que eventos importantes da escola, como o aniversário da agremiação, foram realizados fora da sede própria, uma das poucas entre as escolas locais.
Também apontam a ausência da visita da corte carnavalesca na quadra como sinal do isolamento institucional vivido pela escola. A sede da agremiação virou depósito para banheiros
químicos. Para os manifestantes, são sintomas de uma gestão que se afastou de suas raízes.
Além das críticas à condução administrativa, o movimento aponta ainda um desdobramento judicial envolvendo o presidente da escola. Segundo integrantes do “SOS Soli”, Jair Sampaio teria acionado a Justiça contra cinco membros do grupo, com acusações de calúnia, difamação e ameaça, além de pedido de indenização.
A ação, no entanto, teve parte dos pedidos indeferidos pelo juiz, que não reconheceu a existência de ameaça nem de qualquer conduta que atentasse contra a honra do dirigente, destacando o caráter pacífico da mobilização.
Para os manifestantes, a iniciativa foi uma tentativa de intimidar e silenciar o movimento — estratégia que, segundo afirmam, já teria sido utilizada contra outros moradores. Eles reforçam que o protesto é organizado, ordeiro e fundamentado em reivindicações administrativas, o que teria impedido o avanço da medida judicial.
Apesar do clima de revolta, o tom do ato foi de resistência e pertencimento. Influenciadores do carnaval e lideranças comunitárias divulgaram vídeos de apoio à mobilização.
“Seguiremos firmes, porque o Soli nasceu do povo e sempre será do povo”.
Entre tambores, palavras de ordem e memórias de carnavais vitoriosos, a mensagem ecoou pelas ruas de Jacareacanga: mais que um desfile, o Império Solidariedade representa identidade, cultura e história. E, segundo a comunidade, essa história precisa — e vai — continuar sendo escrita por quem sempre esteve na avenida: o povo.
