EDITORIAL
A Operação Paroxismo, deflagrada pela Polícia Federal e autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, colocou novamente o Amapá no centro de uma investigação de grande impacto político. O afastamento do prefeito de Macapá, Antônio Furlan, do vice-prefeito Mário Neto e da secretária de Saúde, Érica Aymoré, por 60 dias, abriu um novo capítulo na crise que envolve suspeitas de corrupção, direcionamento de licitação e desvio de recursos públicos nas obras do Hospital Municipal da capital.
O episódio revela uma realidade que muitas vezes é esquecida no calor da disputa política: certas instituições não escolhem lados. A mesma Polícia Federal que investiga adversários políticos é a que também investiga aliados. Não faz muito tempo, apoiadores do prefeito comemoravam a atuação da PF no caso envolvendo o afastamento de Jocildo Lemos da direção da Amprev. Naquele momento, a ação policial era vista como necessária e correta. Hoje, quando o alvo da investigação é o prefeito da capital, o discurso muda e surgem acusações de perseguição.

Agente da PF retira HD de computador da Amprev em fevereiro

4 de março: policiais federais cumpram mandado que afasta prefeito de Macapá do cargo
Mas os fatos mostram que a Polícia Federal agiu com base em elementos concretos. Segundo as investigações divulgadas na nova fase da Operação Paroxismo, houve cumprimento de 13 mandados de busca e apreensão em Macapá, Belém e no Rio Grande do Norte. A PF apreendeu celulares e documentos na residência do prefeito e afirma possuir indícios robustos de corrupção envolvendo a obra do Hospital Municipal, que está paralisada. Entre os elementos citados está a imagem de um empresário sacando R$ 400 mil em dinheiro e entrando em um carro de propriedade do prefeito.
As investigações também apontam movimentações financeiras consideradas suspeitas, incluindo transferências para empresas ligadas à primeira-dama de Macapá, Rayssa Furlan. A Polícia Federal afirma que clínicas do casal teriam recebido depósitos de valores que estariam relacionados ao esquema investigado. São acusações graves que agora precisarão ser analisadas no devido processo legal, com direito à ampla defesa e ao contraditório.
Diante desse cenário, a tentativa de transformar uma investigação criminal em narrativa política pode até mobilizar militantes mais apaixonados, mas não altera a essência do problema. Instituições como a Polícia Federal e o Ministério Público atuam com base em investigação técnica e decisões judiciais. Quando há indícios consistentes, a máquina da Justiça se move, independentemente de quem esteja no poder.
No fim das contas, a lição é simples e antiga na política brasileira: o pau que dá em Chico também dá em Francisco. A mesma Polícia Federal que investiga um lado investiga o outro. E, quando se trata de desvio de dinheiro público, a história costuma terminar sempre no mesmo lugar — nos tribunais e, muitas vezes, atrás das grades. Resta agora acompanhar os desdobramentos da investigação e ver o que de fato será comprovado pela Justiça.

