Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
Bem antes da 2ª fase da Operação Paroxismo, o cenário já era de abandono no canteiro de obras do Hospital Geral Municipal e Maternidade, localizado no bairro Boné Azul, zona Norte de Macapá. O empreendimento, que está no centro da investigação da Polícia Federal — responsável pelo afastamento e posterior pedido de renúncia do então prefeito Anônio Furlan (PSD) —, apresenta sinais claros de descaso.
Nesta sexta-feira (6), a reportagem esteve no local e constatou que o mato alto começa a tomar conta do terreno, enquanto os portões de acesso permanecem trancados com correntes e cadeados. Não há operários trabalhando; apenas um vigilante solitário em uma guarita observa o prédio onde o limo já encobre parte da alvenaria nos fundos da construção.
A paralisação física da obra reflete a paralisia administrativa causada pela Operação Paroxismo, da Polícia Federal. O empreendimento é o pivô da investigação que afastou o prefeito Dr. Furlan (PSD) e o vice-prefeito Mário Neto (Podemos) de seus cargos.
Após a decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), Dr. Furlan apresentou formalmente seu pedido de renúncia ao mandato. A placa instalada em frente ao prédio indica que os trabalhos começaram em 13 de maio de 2024, com previsão de entrega para 11 fevereiro de 2026, mas o estado atual da estrutura sugere que o cronograma está longe de ser cumprido, apesar do investimento total previsto de R$ 69,3 milhões.

Portões trancados com correntes e cadeados impedem acesso ao prédio onde não há registro de operários trabalhando. Fotos: Rodrigo Índio/SelesNafes.com

Investigação da Polícia Federal apura suspeitas de fraude na contratação da empresa responsável

Canteiro silencioso contrasta com a promessa de ampliar a rede pública de saúde na zona norte de Macapá

Empreendimento com investimento previsto de R$ 69,3 milhões deveria ser entregue em fevereiro de 2026
Segundo as investigações da Polícia Federal, o contrato firmado com a empresa Santa Rita Engenharia Ltda apresenta “indícios contundentes” de fraude. Os investigadores apontam que a proposta de preço da empresa era praticamente idêntica ao orçamento interno feito pela própria prefeitura, o que indica um possível acesso prévio aos critérios da licitação.
Além do direcionamento do certame, a PF identificou uma movimentação financeira atípica: logo após os repasses da prefeitura, os sócios da empreiteira realizaram 59 saques em espécie que, somados, ultrapassam R$ 9,8 milhões. O dinheiro, que deveria custear a obra, não retornou ao circuito bancário nem foi aplicado na construção.

Ministro do STF autorizou afastamentos e buscas para evitar destruição de provas e manipulação de dados da gestão municipal

Moradores seguem à espera da unidade de saúde enquanto a estrutura permanece fechada e sem atividade no local
O esquema criminoso envolveria ainda lavagem de dinheiro e o uso de veículos oficiais e particulares do prefeito para o transporte de valores. Há também registros de transferências bancárias da Santa Rita Engenharia para contas ligadas à ex-esposa e à atual companheira de Dr. Furlan. Diante da gravidade dos fatos, o STF autorizou buscas em Macapá, Belém e Natal, além do afastamento da Secretária Municipal de Saúde, Érica Aymoré, e do chefe do setor de licitações, Walmiglisson Ribeiro da Silva.
O ministro Flávio Dino justificou o afastamento imediato para evitar que os envolvidos pudessem destruir provas ou manipular dados do sistema municipal.

Relatório da PF aponta 59 saques em espécie que somam mais de R$ 9,8 milhões após repasses da prefeitura à construtora

Vegetação alta começa a tomar conta do terreno e reforça o cenário de abandono no canteiro de obras
Com a renúncia de Dr. Furlan e o afastamento judicial do vice-prefeito, a gestão da capital amapaense passa para as mãos do presidente da Câmara de Vereadores Pedro DaLua.
Enquanto a batalha jurídica se desenrola nos tribunais, os moradores da zona norte seguem aguardando por um hospital que, por ora, permanece apenas como um esqueleto de concreto vigiado por correntes e sob a sombra de um suposto desvio milionário de recursos federais.
