Por GABRIEL PENHA*, especial para o SelesNafes.com
Acontece na segunda-feira, 24 de agosto, o ponto alto da Festa do Divino Espírito Santo, na vila histórica de Mazagão Velho. A data é marcada pela cerimônia de coroação da Imperatriz, representada por uma menina da comunidade, em alusão à Princesa Isabel, signatária da Lei Áurea, que decretou o fim da escravidão no Brasil, em 13 de maio de 1888 – os antepassados acreditavam que ela foi iluminada pelo Divino ao assinar o documento.
Além da Soberana, as chamadas “empregadas do Divino” também ocupam outros cargos, cada um com atribuições diferentes: a Trinchante cuida das joias da princesa; a Pega na Capa é responsável pelas vestimentas; a Alferes Bandeira carrega a Bandeira do Divino; as Varas douradas fazem a segurança da Corte Real; e as Pagas-Fogaças cuidam da alimentação. Todas são escolhidas no ano anterior através de sorteio realizado pela comissão organizadora.
Para 2026, a escolhida para ser a Imperatriz foi HeyshilaPiedade dos Reis, de 11 anos. O pai, Mango Reis, folião do Divino há mais de 20 anos, relata que também vive cada momento junto com a filha e não mede esforços para que tudo saia da melhor maneira possível.

A tradição centenária reúne fé, ancestralidade e manifestações culturais que atravessam gerações em Mazagão Velho. Fotos: Gabriel Penha
“A emoção é muito grande, ter a filha escolhida para o cargo de Imperatriz. É uma criança muito dedicada e recebe o apoio da família e da comissão. É essa força e companheirismo que mantêm nossa tradição viva”, diz Magno.
Após a Coroação, a Corte segue em procissão e percorre as ruas de Mazagão Velho até a sede Mocito Ayres. E lá onde acontecem leilões, homenagens, lanche coletivo e o sorteio da Corte para o ano seguinte.
A Festa do Divino em Mazagão marca o culto ao Espírito Santo, em suas diversas manifestações. É uma das mais antigas e difundidas práticas do catolicismo popular, com origens na África e na Europa, celebrada em diversos estados do Brasil e em Mazagão Velho acontece há mais de um século, unindo ancestralidade aos tambores amazônicos.
A programação iniciou no dia 16 de agosto, com alvoradas, chegada fluvial, novenas, donativos, levantaçãodo mastro, quebra da murta, folias e missas. No dia 25, um morador ou personalidade local é homenageado no chamado “marabaixinho”.

Procissões, tambores, gengibirra e marabaixo itinerante integram a programação que mantém viva a tradição do Divino no Amapá.
Um marabaixo itinerante
Após as celebrações religiosas e da parte social, um “marabaixo itinerante” percorre diversas residências de Mazagão Velho. A comitiva é precedida por um dos participantes carregando e agitando uma bandeira de forma frenética.
Trata-se do bandeirista Fernando Valente Jacarandá, de 50 anos, que exerce o cargo há mais de 25 anos, desde que tinha 21. Diz que além de ser uma responsabilidade é uma forma de honrar o legado da saudosa avó, Olga Jacarandá, que por muitos anos foi organizadora da festividade.
“Minha avó me deu essa bandeira e, junto com ela, a responsabilidade. Mesmo depois de tanto tempo, exercer esse papel mexe muito comigo”, emociona-se Fernando.

A tradição centenária reúne fé, ancestralidade e manifestações culturais que atravessam gerações em Mazagão Velho
A cada parada, após o rufar das caixas e o rodar das saias, os anfitriões servem a tradicional gengibirra, a bebida ritual do marabaixo, e o “cozidão”, caldo de carne para dar sustança aos brincantes. O canto dos ladrões (versos) só silencia no fim da tarde, momento em que antecede a derrubada do mastro, marcando o encerramento da festa, o fim de mais um ano de celebrações o desejo de que no próximo ano todos estejam juntos mais uma vez.
A Festa do Divino Espírito Santo é uma das muitas celebrações peculiares que acontecem no solo sagrado do lugar considerado o berço da cultura amapaense, protagonizado por um povo que luta para manter vivas as suas tradições.
* O autor é bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Amapá (Unifap), fotógrafo profissional especializado em Fotografia Cultural e idealizador do projeto “Povo de Cultura e Fé”, premiado pelo Edital “Rumos”, do Itaú Cultural e que tem como proposta difundir a história e a cultura de Mazagão Velho.
