Por PEDRO PESSOA, especial de Belém para o Portal SN
Faltando menos 80 dias para a COP30, o governo brasileiro enfrenta crescente pressão internacional devido ao alto custo das hospedagens em Belém. Até agora, apenas 47 dos 196 países previstos confirmaram onde vão se hospedar durante a conferência climática, segundo dados divulgados nos últimos dias.
Do total, 39 países garantiram vagas pela plataforma oficial do governo, em sua maioria nações em desenvolvimento. Outros oito, entre eles Japão, Noruega, Espanha e Egito, fecharam acordo diretamente com hotéis.
Disputa por subsídios
Nos bastidores, o Brasil e a Organização das Nações Unidas (ONU) negociam sobre quem deve bancar parte das despesas das delegações de países pobres. Atualmente, o orçamento subsidiado pela ONU é de US$ 140 por dia (cerca de R$ 756), valor que deve cobrir alimentação e hospedagem. Mas na plataforma oficial da COP, a diária mais barata chega a US$ 350 (aproximadamente R$ 1,9 mil).
Diante da discrepância, a ONU sugeriu que o Brasil custeasse parte dos gastos, oferecendo um subsídio adicional de US$ 100 para países em desenvolvimento. O governo recusou a proposta, alegando que já arca com investimentos significativos na realização da conferência.
A secretária-executiva da Casa Civil, Miriam Belchior, afirmou que o país não tem condições de bancar esse custo, mas que a ONU poderia aumentar sua contribuição, já que em qualquer cidade do mundo os valores seriam ainda maiores. Ela citou que não se trata de igualar os preços a cidades-sede como Bonn, mas sim ao que se pagaria em São Paulo ou Rio de Janeiro.

Belém tem 33 mil quartos individuais disponíveis; evento solicitou 24 mil. Fotos: Divulgação
Pressão sobre os preços
Segundo a Secretaria Extraordinária para a COP30 (Secop), há atualmente 33 mil quartos individuais disponíveis em Belém, mais do que os 24 mil solicitados pela ONU. O desafio, no entanto, é adequar os preços ao poder aquisitivo das delegações.
Miriam Belchior destacou que a maior parte da hospedagem cadastrada é particular, fora da rede hoteleira tradicional, o que dificulta a regulação de preços. Ela acrescentou que o governo já pediu investigações sobre possíveis abusos, mas lembrou os limites de intervenção do Estado no setor privado.
Ainda em fevereiro e março, a rede hoteleira foi procurada para assinar um termo de ajustamento de conduta (TAC), propondo que o teto das diárias fosse equivalente ao período do Círio de Nazaré.
Esforço de convencimento
O secretário extraordinário da COP30, Valter Correia, informou que será criada uma força-tarefa para buscar diretamente as delegações ainda não confirmadas e entender os obstáculos enfrentados. Ele disse acreditar que muitos países aguardavam a reunião mais recente da ONU para avaliar as respostas do Brasil. Agora, segundo ele, um grupo técnico vai entrar em contato com os representantes estrangeiros para compreender as dificuldades e tentar encontrar alternativas.
Com a pressão internacional em alta e o relógio correndo, o Brasil busca alternativas para ampliar o número de confirmações sem recorrer a recursos públicos.