Por PEDRO PESSOA, de Belém (PA)
Um esquema de corrupção que teria atuado de forma articulada desde 2021 é alvo de uma investigação do Ministério Público do Pará, segundo revelou reportagem da TV Globo. No centro das apurações estão dois delegados da Polícia Civil, um promotor de Justiça, advogados e um juiz, suspeitos de usar cargos públicos para extorquir investigados e negociar decisões judiciais em casos de grande repercussão.
O ponto de partida da investigação foi um atropelamento ocorrido na madrugada de janeiro de 2024, em Belém. Um homem que se exercitava na ciclofaixa foi atingido por um veículo e sobreviveu. O motorista foi identificado e o inquérito ficou sob responsabilidade do delegado Arthur Afonso Nobre de Araújo Sobrinho. Segundo o MP, familiares do condutor teriam sido pressionados a pagar propina para que a situação fosse “amenizada”. O valor exigido teria chegado a R$ 25 mil.
Os delegados
A partir da análise do celular do delegado, apreendido durante a apuração, os investigadores afirmam ter identificado uma rede estruturada de corrupção. De acordo com a promotoria, Arthur Nobre selecionava alvos estratégicos, em geral suspeitos envolvidos em ocorrências de repercussão, e oferecia vantagens ilegais, como relaxamento de prisões, atrasos em procedimentos ou até o arquivamento de inquéritos. Em troca, exigia pagamentos em dinheiro.

O delegado Arthur Nobre é acusado de selecionar alvos…

…e o então diretor metropolitano e delegado Daniel Castro teria também recebido os valores

Atropelamento gerou grande repercussão
Mensagens interceptadas indicam que o delegado mantinha contato frequente com o então diretor metropolitano da Polícia Civil, Carlos Daniel Fernandes de Castro, que teria conhecimento das extorsões e recebido parte dos valores. As conversas sugerem, ainda, que transferências de delegacias e escolhas de equipes eram tratadas como oportunidades para ampliar os ganhos ilícitos. Carlos Daniel foi afastado do cargo e nega as acusações.
O promotor
Segundo o MP, o esquema contava também com o apoio institucional de um promotor de Justiça. Luiz Márcio Teixeira Cipriano, da 2ª Promotoria de Controle Externo da Atividade Policial, é suspeito de validar acordos ilegais e garantir respaldo às ações do grupo. Há registros de diálogos em que promotor e delegado combinariam valores e alvos de extorsão. Luiz Márcio foi afastado do Ministério Público e, por meio da defesa, informou que irá se manifestar no momento oportuno.

Promotor Luiz Cipriano: gravações mostram combinações de valores
O juiz
A investigação avançou ainda sobre o Judiciário. O juiz Jackson José Sodré Ferraz, do Tribunal de Justiça do Pará, é investigado sob suspeita de receber propina para proferir decisões que beneficiariam o esquema. Um dos casos analisados é a Operação Truque de Mestre, deflagrada em 2023 contra influenciadores digitais suspeitos de promover jogos de azar. Para o MP, medidas judiciais teriam sido utilizadas como instrumento de pressão para a obtenção de pagamentos.
Entre os nomes citados está o da influenciadora Noelle Araújo, apontada como alvo de extorsão. Conforme a investigação, valores teriam sido pagos para evitar a decretação de prisão preventiva. A defesa nega qualquer pagamento ilícito e afirma que os recursos mencionados se referem a honorários advocatícios.

Infuenciadora teria sido alvo de extorsão. Imagens: TV Globo
A Polícia Civil instaurou procedimento administrativo disciplinar para apurar as condutas dos policiais envolvidos. O delegado Arthur Nobre foi afastado do cargo, mas continua recebendo salário e responde ao processo em liberdade. A defesa afirma que só irá se pronunciar após acesso completo aos autos.
O Ministério Público sustenta que há indícios robustos da existência de uma “justiça paralela”, na qual decisões e atos oficiais teriam sido negociados como mercadoria. As investigações seguem em andamento, e todos os citados negam envolvimento no esquema.
