Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
Enquanto o Corpo de Bombeiros do Amapá travava uma batalha exaustiva contra as chamas que consumiam uma distribuidora de alimentos no bairro Buritizal, na zona sul de Macapá, outra força, invisível mas poderosa, se manifestava nas calçadas: a empatia. Entre o estalo das chamas e o som das sirenes, gestos de cuidado transformaram o cenário de desespero em um exemplo de humanidade.
A Fé que Enxerga o Próximo
Na Avenida Felipe Camarão, uma cena interrompeu o fluxo apressado das equipes de emergência. De joelhos, Rosiane Gurjão, de 46 anos, chorava e orava. Rosiane perdeu a visão há cinco anos devido a um tumor cerebral, mas afirma que a cegueira física aguçou sua percepção sobre a dor alheia.
“Eu não era assim, fiquei assim [cega]. Hoje em dia eu sinto muito as coisas nas pessoas. As pessoas não sabem mais vir e orar para que tudo se acalme”, desabafou Rosiane.

Mesmo sem enxergar há cinco anos, Rosiane Gurjão foi à rua na madrugada para orar pelo fim do incêndio. Fotos: Rodrigo Índio/SN

De joelhos na avenida, moradora cega emocionou quem passava ao orar pela vida dos trabalhadores, bombeiros e vizinhança durante o combate ao fogo
Moradora do bairro, ela acordou por volta das 4h com o barulho das explosões. Ao saber que o fogo atingia o comércio de “Ibiapinha”, um antigo cliente de quando ela trabalhava como correspondente bancária, Rosiane não hesitou em ir para a rua clamar pela vida dos trabalhadores e pela vizinhança. “Minha oração é para que saia tudo certo e que o Senhor mande uma chuva”, pediu, emocionada.
Café, Água e Acolhimento
A poucos metros dali, na Avenida Clodóvio Coelho, o cenário era de retirada apressada de móveis e pertences. No meio do caos, Dona Deusalina Pacheco, de 75 anos, tornou-se um ponto de apoio. Com uma cuba de água gelada e garrafas de café, ela recebia bombeiros e moradores exaustos.
“É para ajudar na grande tragédia que tem aí. Os bombeiros, as pessoas que moram aí… alguém que está com sede, bebe a água. É de graça”, afirmou Dona Deusalina.

Água gelada, café quente e palavras de acolhimento ajudaram a aliviar o cansaço de bombeiros e moradores retirados às pressas de suas casas

Aos 75 anos, Dona Deusalina Pacheco improvisou água gelada e café para acolher bombeiros e moradores exaustos
A idosa contou que a iniciativa surgiu ao ver o esforço contínuo dos militares e o desespero de quem perdia tudo. “Minha filha viu a demora, a sede deles, e eu decidi ajudar. Me sinto bem contribuindo”, disse ela, enquanto oferecia um pouco de alento em meio à fumaça.
O Balanço da Tragédia
O incêndio, que começou na madrugada desta sexta-feira (23) no Comercial Ibiapina, mobilizou um grande contingente do Corpo de Bombeiros, incluindo o uso de autoescada mecânica para combate aéreo.
O fogo foi controlado após cerca de 6 horas de combate intenso. A estrutura do prédio foi totalmente comprometida, com desabamento interno de pavimentos.

Em meio ao caos, moradores do bairro Buritizal se organizaram espontaneamente para apoiar as equipes de emergência e quem perdeu tudo

O combate às chamas conta com o uso de autoescada mecânica, permitindo o ataque aéreo ao fogo

O incêndio destruiu a estrutura do prédio, mas revelou uma comunidade que respondeu à tragédia com empatia, fé e cuidado coletivo
Casas vizinhas foram evacuadas por segurança; não houve registro de feridos até o momento. Além de Dona Deusalina, outros moradores disponibilizaram água de suas piscinas para auxiliar o abastecimento das viaturas.
A Defesa Civil permanece no local para avaliar os riscos de desabamento total da estrutura. Embora a perícia ainda vá determinar as causas das explosões ouvidas pelos moradores, o que ficou registrado na manhã deste dia 23 foi a capacidade da população do Buritizal de não se deixar queimar pela indiferença.

