É hora de falar de verdade sobre violência e drogas na sala de aula

Casos brutais que se repetem mostram que apenas punir não basta — é preciso formar consciência desde a infância
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EDITORIAL

Bastou acompanhar o noticiário dos últimos dois dias para sentir o peso de começar a semana diante de tantos casos chocantes de feminicídio e violência doméstica. É como se alguns homens acreditassem ter licença para matar e agredir. Mesmo após crimes de grande repercussão e condenações severas como o caso da cabo Emily, assassinada em 2020 pelo ex-companheiro, o então soldado Kassyo Mangas (condenado a mais de 20 anos de prisão), novas tragédias continuam acontecendo. E, por mais doloroso que seja admitir, outras ainda vão se repetir.

Ontem, no interior do Pará, uma mulher de 54 anos foi morta a tiros pelo ex-marido, de 67, dentro de uma lanchonete. Ferida, caída no chão, ainda implorou por misericórdia em nome da filha do casal. A resposta foi um disparo fatal. O agressor tirou a própria vida ao colidir propositalmente contra uma carreta durante a fuga.

No domingo, a ex-miss e enfermeira Paula Barroso, de 30 anos, foi assassinada em um balneário na zona rural de Macapá, também a tiros, pelo ex-marido, que acabou preso e alegou que tudo não passou de um acidente. Ela deixou dois filhos pequenos.

Paula Barroso…

…morta por Alderico num “acidente” a tiros. Foto: Rodrigo Índio

Além dos feminicídios, a violência segue se manifestando de outras formas. Casos de espancamento em espaços públicos viralizam nas redes sociais, e até figuras conhecidas surgem envolvidas em denúncias graves de agressão contra companheiras, como foi o caso do sertanejo João Lima (preso). A sensação é de que a brutalidade está cada vez mais banalizada.

Quando um crime ganha grande repercussão, surge a impressão de um “efeito manada”. Durante anos, especialistas chegaram a defender que a cobertura da imprensa poderia estimular certos comportamentos, como nos casos de suicídio. O tempo mostrou que silenciar não resolve. Não falar sobre o problema não o faz desaparecer. E a comunicação, por si só, não é a causa da epidemia de violência de gênero.

Entender a origem desse lado sombrio do comportamento humano é tarefa da psicologia e da psiquiatria. Mas, enquanto a ciência busca explicações profundas, talvez precisemos ser mais práticos. É hora de agir no nascedouro da formação do cidadão: a escola.

Maria do Socorro implorou pela vida ao homem que um dia disse que a amava

Alterações na legislação, como a inclusão do feminicídio como qualificadora no Código Penal e o fortalecimento das medidas protetivas, foram avanços importantes. Mas estão longe de resolver o problema.

Não seria o momento de levar esse debate para o início de tudo? Para o nosso berço de formação? Por que não discutir feminicídio, respeito, limites e as consequências jurídicas da violência dentro das escolas, por meio de disciplinas, projetos ou palestras desde o ensino fundamental?

É preciso estimular a reflexão não apenas sobre a proteção das mulheres, mas sobre a violência como um todo — que também atinge homens, crianças e idosos. Embora os dados mostrem que as mulheres são as principais vítimas de violência doméstica letal, sim, também existem mulheres violentas e assassinas. É fundamental formar jovens para compreender que agressão, controle e abuso nunca são formas aceitáveis de relacionamento.

Talvez esteja na hora de certos temas saírem apenas das manchetes e irem para a lousa. O mesmo vale para a dependência química. Grande parte dos crimes violentos está associada ao uso abusivo de álcool e drogas. Campanhas simplistas do tipo “diga não às drogas” nunca foram suficientes. Informação rasa não muda comportamento.

Ensinar, de forma séria e contínua, sobre as consequências da violência, do uso de drogas, dos maus-tratos a animais e da cultura do desrespeito ainda na infância e adolescência pode não resolver tudo. Mas pode ajudar a formar adultos mais conscientes, empáticos e responsáveis.

E talvez, no futuro, isso nos ajude a mudar as manchetes.

Seles Nafes
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