Por JONHWENE SILVA, de Santana (AP)
Entre o som seco das botas no asfalto e a batida vibrante dos surdos na avenida, Valkeline Campos construiu uma trajetória que desafia rótulos e quebra preconceitos. Aos 41 anos, policial civil há 18, vive uma rotina que alterna risco, estratégia e comando com brilho, samba no pé e emoção. É assim que a única mulher a chefiar um time tático operacional no Brasil, na CORE (Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais), também se consagra como Rainha de Bateria da escola de samba Império do Povo, no município de Santana.
À primeira vista, os dois mundos parecem distantes. De um lado, a atuação silenciosa e firme da policial, marcada por treinamentos constantes, decisões sob pressão e a responsabilidade de proteger vidas. Do outro, a avenida iluminada, a cultura popular, o sorriso aberto e a missão de conduzir a bateria com energia e representatividade. Mas Valkeline garante: a essência é a mesma.
“Nada acontece por acaso. Tanto na polícia quanto no samba, tudo é disciplina, preparo e entrega”, afirma.

Policial civil há 18 anos, Valkeline lidera equipe tática operacional…

… e concilia a rotina intensa com ensaios e compromissos do carnaval. Fotos: arquivo pessoal
Segundo Valkeline, ser Rainha de Bateria nunca esteve nos planos. Pelo contrário. A policial via esse posto como algo distante da sua realidade, quase incompatível com o cotidiano duro do trabalho. O convite, foi encarado como mais um desafio, e desafios sempre fizeram parte da sua história. Única mulher em uma unidade operacional, ela aprendeu cedo a ocupar espaços que não foram pensados para mulheres. Aceitar a coroa foi, também, um gesto de afirmação.
“A polícia me ensinou coragem. A bateria me ensinou leveza. Hoje eu sei que essas forças não se contradizem, elas se completam. Na polícia, salvo vidas. Na bateria, transformo arte em espetáculo. Em ambos os mundos, nada acontece por acaso. É estudo, preparo físico, respeito à equipe e entrega ao que se faz”, completa.

Única mulher a chefiar um time tático operacional no país, Valkeline destaca a ocupação feminina em espaços tradicionalmente masculinos.
A relação com a avenida, aliás, é marcada por superação. Esta não é a primeira vez de Valkeline na Império do Povo, mas o retorno tem um sabor especial. Após uma grave lesão no ligamento cruzado anterior, ela ficou dois anos afastada das atividades. Foram dias de dor, incerteza e medo, mas também de fé, disciplina e resiliência. Agora, cada passo no asfalto carrega o peso simbólico de uma vitória pessoal.
“Hoje eu volto mais forte, mais determinada e com o coração cheio de gratidão. Tudo isso significa muito para mim. Como em toda a minha trajetória, estar aqui é resultado de superação”, relata.

Retorno à avenida acontece após dois anos afastada por lesão grave no joelho, superada com reabilitação e disciplina
Quando a bateria começa a tocar, a policial dá lugar à mulher que se sente viva e plenamente conectada com algo maior. O coração acompanha cada batida, e a emoção mistura passado, presente e futuro. Segundo ela, Valkeline não é apenas policial nem apenas Rainha de Bateria. Ela é símbolo de resistência, exemplo para a comunidade e prova de que a disciplina também pode virar alegria. Casada, mãe de filhas gêmeas, Valkeline concilia jornadas intensas com a vida familiar e carrega, nos dois papéis que exerce, um desafio em comum: manter o alto nível de preparo e responsabilidade.
“Na polícia, uma decisão pode mudar destinos. Na avenida, milhões de olhos estão voltados para você. Em ambos, é preciso ser exemplo e nunca parar de evoluir.”

Casada e mãe de gêmeas, a policial divide a rotina entre operações, família e preparação para o desfile

Para 2026, a expectativa é levar à avenida representatividade e superação
Para o desfile de 2026, a expectativa é clara: viver cada segundo com intensidade e representar a Império do Povo com honra. Entrar na avenida com o coração grato e sair com a certeza de que o melhor foi entregue. Entre o distintivo e o samba, Valkeline Campos mostra que força e sensibilidade podem, sim, desfilar lado a lado, no mesmo compasso.
